Grandes Escritores Brasileiros

 

Os mais elevados pensamentos dos homens, seus desejos mais puros, suas crenças mais ardentes, seus mais dignos sentimentos, é nos livros que podemos apreciá-los. E esses livros são, por vezes, criações de beleza. Não nos é grato apenas seu ensino moral, seu pensamento superior, mas a própria forma em que estão escritos, a música de seu estilo, a pompa ou a delicadeza de suas imagens, o vigor deslumbrante de seu colorido, enfim a elegância e a força com que o pensamento se reveste para fazer impressão em nossas almas. Ora, houve brasileiros, filhos de nossa terra, representantes ilustres de nossa gente, que também criaram beleza, deixaram após si livros capazes de, tantos anos depois de sua morte, nos convencer e seduzir, no encantamento sutil e profundo da grande arte. Precisamos conhecer alguns desses grandes brasileiros, os nossos melhores poetas e prosadores.
No século XVI os cultores da literatura (se assim chamaremos às esparsas poesias e às cartas e crônicas que se escreveram aqui) eram de origem portuguesa, e até mesmo franceses, ingleses e alemães.
Um dos primeiros poetas que se distinguiram no Brasil foi Gregório de Matos (1623-1696), por alcunha o “Boca de Inferno”, que nos legou uma obra satírica e burlesca. Grandes e pequenos bispos e governadores, cônegos, magistrados, nobres e plebeus, todos sofreram os golpes do seu látego implacável.
Do século imediato são alguns dos maiores poetas do nosso período colonial. Basílio da Gama e Santa Rita Durão, autores dos poemas O Uruguai e O Caramuru, gênero épico; Cláudio Manuel da Costa, inspirado sonetista à feição de Petrarca e Camões; Tomás Antônio Gonzaga, o mavioso cantor de Marília e provável autor das Cartas Chilenas, notável sátira em versos contra o governador das Minas Gerais, então divulgada anonimamente; o lírico de Glaura, Silva Alvarenga; e o brasileiríssimo Domingos Caldas Barbosa, autor da Viola de Lereno. Todos estes poetas já começavam a inspirar-se no Brasil e em coisas brasileiras, de maneira a dar um acento nacional característico à nossa literatura. Os dois primeiros introduziram na poesia de língua portuguesa o homem, a vida e a paisagem da América.

Um dramaturgo profano e um poeta sacro
O dramaturgo Antônio José da Silva, denominado “O Judeu”(1705-1739), também era brasileiro, mas viveu, poetou e se fez grande pela sua obra e pelo sacrifício da vida, em Portugal. É ali o representante, no século XVIII, do teatro popular, inaugurado duzentos anos antes por Gil Vicente. Em suas obras soube castigar os vícios e ridículos da sociedade do tempo, mas isso e a origem judaica valeram-lhe o ser condenado à morte pelo terrível tribunal do Santo Ofício. Devemos felicitar-nos por vivermos em tempos mais felizes, em que cada um, seja cristão ou judeu, pode exprimir livremente aquilo que pensa.
Nos fins do século XVIII e princípios do século XIX floresce um escritor de grande talento, Sousa Caldas(1762-1814) Foi o poeta brasileiro que melhor desferiu vôo em assuntos religiosos. As suas Poesias Sacras, que abrem com a belíssima ode Sobre a Existência de Deus, dão um excelente testemunho da grandeza real do seu estro poético.
Nos princípios do século XIX distinguiu-se também a ilustre família dos Andradas.
José Bonifácio(1763-1838), natural de Santos, é uma das figuras mais complexas e mais interessante de toda a América. Foi sábio, poeta, homem de Estado. Seus estudos mineralógicos têm muito valor.
Antônio Carlos(1773-1845), cognominado o “Mirabeau brasileiro”, foi um dos maiores oradores do tempo.
Uma grande geração e, nessa grande geração, um grande poeta
O romantismo, movimento universal de renovação literária que libertou os homens de letras dos moldes clássicos, já exaustos, encontrou eco também aqui, em homens de valor, a começar por Gonçalves de Magalhães (1811-1882), autor dos Suspiros Poéticos e Saudades; Porto Alegre(1806-1879) o poeta das Brasilianas e do Colombo; e principalmente em Gonçalves Dias.
Antônio Gonçalves Dias(1823-1864) nasceu na cidade de Caxias, no Maranhão. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, e voltou para o Brasil em 1845, indo residir no ano seguinte no Rio, onde publicou os Primeiros Cantos. Fez várias e demoradas viagens à Europa e, quando regressava de uma delas, encontrou a morte em circunstâncias trágicas. Acometido por uma doença grave, partira para a Europa a procurar alívio aos sofrimentos. Estava em Paris quando ali lhe chegou a notícia de que ia ser suspenso o subsídio que o governo lhe dava. Essa notícia lançou-o em aflição enorme. Com a doença, vinha a miséria. Deliberou partir imediatamente para o Rio, a bordo do veleiro Ville de Boulogne, por não ter dinheiro para se transportar em um paquete. O Ville de Boulogne naufragou à vista do Maranhão, quando a bem-amada terra do Brasil já acenava de longe ao egrégio poeta. Salvaram-se todos, menos Gonçalves Dias.
Seu lirismo é de uma intensidade e igualmente de uma simplicidade rara. Tinha ao mesmo tempo a expressão de ternura, a singeleza e o jeito da forma da poesia popular. Por isso as suas obras são ainda hoje apreciadas e lidas com interesse por todos nós.

Poetas que fizeram de sua dor o seu poema, e que morreram na primavera da vida
Estes românticos tiveram discípulos, e discípulos eminentes. Todos têm ouvido falar, provavelmente, em Laurindo Rabelo, em Álvares de Azevedo, em Junqueira Freire, em Casimiro de Abreu e em Fagundes Varela.
Laurindo Rabelo(1826-1864) foi chamado o “poeta lagartixa”, irreverente e ao mesmo tempo triste e elegíaco, de cuja pena saíram algumas das mais belas páginas dolorosas da poesia brasileira.
Álvares de Azevedo(1831-1852) foi um talento poderoso numa organização débil e franzina. Morreu aos 20 anos de idade, quando dava esperanças de vir a ser um dos nossos maiores poetas. Em sua Lira dos Vinte Anos há poesias soberbas, como Sonhando e Pedro Ivo. A nota que a sua lira vibra com mais intensidade é a do amor.
Junqueira Freire(1832-1855), o poeta das Inspirações do Claustro, morreu também muito moço, mas chegou a dar a medida do seu valor em inúmeras poesias, muitas das quais provocadas pelo misticismo da vida monástica, a que se votara.
A poesia melancólica e sentimental tem entre nós o seu produto mais acabado, o seu mais alto representante e o seu tipo mais extremo em um poeta, que, como os antecedentes, morreu também muito moço, mas foi um dos maiores talentos emotivos da gente brasileira. Referimo-nos a Casimiro de Abreu(1837-1860), o poeta do amor e da saudade, autor das Primaveras, onde se encontra um poema apaixonado e triste que se chama Canção do Exílio. Tudo concorreu para fazê-lo o cantor de tristezas e saudades que ele foi: o ambiente em que viveu, o temperamento, a doença, o gênero de vida a que condenaram, - o comércio, - em desacordo com seus gostos e aspirações, e finalmente seu afastamento da terra natal, que lhe inspirou uma das mais altas notas de sua lira. Minha Alma é Triste, Minha Terra, No Lar, são das poesias mais populares de nossa literatura.
Luís Nicolau Fagundes Varela(1841-1875) foi uma das figuras mais representativas do movimento romântico. Era um inquieto, um revoltado e um lírico, a um só tempo. É de sua autoria o belo poema Anchieta ou o Evangelho nas Selvas. A morte de um filhinho inspirou-lhe o Cântico do Calvário, uma das mais sentidas elegias da língua portuguesa. Freqüentou as Faculdades de Direito de São Paulo e Recife, mas não concluiu o curso. Dotado de grande talento descritivo, foi talvez, dentre todos os poetas românticos, o que soube pintar com mais brilho e variedade a nossa natureza.

Um prosador de grande mérito
Quase ao mesmo tempo desses melancólicos poetas, surge na vida literária o nome inesquecível de José de Alencar(1829-1877). Pelas qualidades de imaginação e dons do estilo, pelo admirável talento descritivo, pela abundância de tons, pelo brilho do colorido, pela música da prosa, a obra de José de Alencar é uma das mais consideráveis de nossas letras.
O grande prosador nasceu em Mecejana, no Ceará, estudou no Rio e formou-se em São Paulo, na Faculdade de Direito. Constituiu a advocacia sua profissão principal; foi também deputado e chegou a Ministro da Justiça. É, porém, como homem de letras que ele se impõe à admiração de todos. Quando em 1857 apareceu O Guarani, em que criava o romance indianista, o público acolheu-o com surpresa e encantamento. Era a voz nova da poesia da terra. Poderosa e candente imaginação dera a tudo quanto escrevera o calor dos trópicos e as galas viçosas de nosso clima. Sentiu-se que havia então nascido a verdadeira literatura nacional. Ali há o perfume da terra virgem, a sonoridade das nossas aves canoras, a radiação deslumbrante de nossa atmosfera. Ao Guarani seguiu-se a encantadora Iracema, espécie de poema em prosa, onde o sentimento da terra brasileira, intenso como no Guarani, se realça de melancolia e de saudade.
Foi José de Alencar o nosso primeiro grande romancista, mas seria impossível esquecermo-nos de Manuel Antônio de Almeida, cujas admiráveis Memórias de um Sargento de Milícias, descrevem num estilo vivo e pitoresco a vida do Rio de Janeiro ao tempo de D. João VI, e de Joaquim Manuel de Macedo, fecundo escritor, autor de uma vintena de novelas, das quais A Moreninha, lida por tantas gerações de brasileiros, constitui sua obra-prima.

Poetas condoreiros
Surge por essa época o movimento condoreiro, como uma revivescência do romantismo, influenciado diretamente pela poesia social de Vitor Hugo. A expressão “condoreiro” vem de condor, a ave de maior porte e mais alto vôo da América.
Entre os representantes dessa escola destaca-se Castro Alves, seguindo-se-lhe Tobias Barreto, Pedro Luís, José Bonifácio, o Moço, e, com a sua ode Napoleão em Waterloo, o próprio Gonçalves de Magalhães, iniciador do romantismo no Brasil.
Castro Alves(1847-1871), um dos poetas mais populares do Brasil e de maior estro de toda a nossa língua, morreu aos 24 anos de idade, deixando-nos apenas um livro, Espumas Flutuantes, além de grande número de poesias esparsas, todas reunidas depois em dois grossos tomos. Ninguém, dentre os seus contemporâneos, o excedeu pelo vigor da inspiração, a riqueza da fantasia, a robusta eloqüência dos versos. Foi o tribuno da poesia, mas um tribuno inspirado e generoso. Expressou a dor dos escravos, cantou a liberdade, deplorou os órfãos e esmolou aos pobres os seus versos. Entretanto, sua poesia também apresenta acentos líricos de primeira ordem, de rara delicadeza de expressão. Castro Alves forma inegavelmente entre os maiores poetas brasileiros.
Tobias Barreto de Meneses (1839-1889), sergipano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife, onde mais tarde seria professor, exercendo grande fascínio sobre a mocidade. Influenciado pelos alemães, deixou uma obra de grande importância no campo da jurisprudência. Como poeta, não voou muito alto, valendo sua coletânea de versos, Dias e Noites, apenas como referência do período em que viveu, ao lado de Castro Alves.

Os cultores da forma ou parnasianos
Os poetas anteriores haviam dado mais importância ao sentimento do que à forma, à idéia do que à expressão. Mas outros poetas nasceram, outras tendências se fizeram poderosas, e vamos encontrar poetas que acima de tudo prezam a forma. São, por assim dizer, os arquitetos, os escultores, os paisagistas, os cinzeladores, os buriladores do estilo. É a época do parnasianismo, de que foi uma das maiores figuras, em Portugal, o brasileiro Gonçalves Crespo.
São quatro os maiores representantes dessa escola: Alberto de Oliveira, Raimundo Corrêa, Olavo Bilac e Vicente de Carvalho.
Alberto de Oliveira(1857-1937), nasceu em Palmital, Estado do Rio. Formou-se em Farmácia e cursou Medicina até o terceiro ano. Exerceu vários cargos públicos, sobretudo de professor de português, literatura e história. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, Sua obra poética é vasta, distinguindo-se notavelmente pelo conceito escultural da forma. Dos livros que deixou o mais conhecido é Alma em Flor.
Raimundo Correia(1860-1911) nasceu a bordo de um navio em águas do Maranhão. Formado em Direito, iniciou-se na diplomacia, mas cedo abandonou a carreira, ingressando no magistério e na magistratura. Além de poeta de grande mérito, foi um professor ilustre e um juiz de alta envergadura moral.
Publicou: Primeiros Sonhos, Sinfonias, Versos e Versões e, mais tarde, Poesias, este último uma seleção dos livros anteriores, com algumas poesias inéditas.
Olavo Bilac(1865-1918), o mais popular de todos os parnasianos, exerceu o jornalismo e o magistério com o mesmo brilho com que se dedicou à poesia. Foi ele o promotor de várias campanhas cívicas, dentre as quais a do serviço militar obrigatório que se estendeu por todo o território nacional. Sua produção poética está dividida nas seguintes coletâneas de versos: Panóplias(obra que versa sobre armaduras antigas), Via Láctea, Sarças de fogo, alma Inquieta, As viagens, O caçador de Esmeraldas e Tarde.
Vicente de Carvalho(1866-1924), natural de Santos, SP, foi juiz e político em seu estado. Após a publicação do livro de estréia, na mocidade, decidiu abandonar a poesia, reiniciando as atividades literárias em plena maturidade com o famoso Poemas e Canções. Foi então recebido pela crítica como um mestre. Era de fato um poeta completo. Foi lírico com Rosa de Amor; dramático, com Pequenino Morto; épico, com Fugindo do Cativeiro. Mas foi, sobretudo, um grande cantor do mar, deixando-nos algumas das mais belas poesias de nossa língua em que descreve as praias da cidade natal e os trabalhos dos pescadores.

Um grande romancista e outros menores
Uma das figuras mais originais da literatura brasileira e um dos mais poderosos prosadores foi decerto o ilustre Machado de Assis(1839-1908).
Suas origens foram modestas. Começou por tipógrafo e revisor de provas, quando compôs o primeiro livro, em 1861, na idade de vinte e dois anos. Afora os rudimentos que lhe ensinaram, tudo o mais aprendeu por si e a fundo.
Sua obra-prima é Memórias Póstumas de Brás Cubas, um livro original, esquisito e forte que honraria qualquer literatura do mundo. Mas também são de primeira ordem as Histórias sem Data, Quincas Borba, Dom Casmurro, Várias Histórias, Esaú e Jacó, Memorial de Aires. Machado de Assis ainda foi um poeta de valor, distinguindo-se neste campo pela sobriedade de emoção, forte sentimento interior e grande perfeição de forma.
O Visconde de Taunay(1843-1899) não deixou uma obra que compare com a de Machado de Assis, mas Inocência é, sem dúvida, uma das nossas grande novelas e desfruta de fama mundial pelas várias traduções existentes.
Outro grande prosador desta época é Raul Pompéia(1863-1895), cujo romance, O Ateneu, revela peregrinas qualidades de forma e pensamento. Espírito cintilante legou-nos, ainda, em pequenos contos, algumas das jóias mais ouras e mais belas da literatura brasileira. Citemos finalmente os nomes de outros romancistas ilustres, como Júlio Ribeiro, Aluísio Azevedo, Coelho Neto, Xavier Marques, Júlia Lopes de Almeida e Afrânio Peixoto.
No conto, recordemos os nomes de João do Rio, Medeiros e Albuquerque, Coelho Neto e Humberto de Campos; e, no conto propriamente regional, os de Afonso Arinos, Simões Lopes Neto, Alcides Moya, Valdomiro Silveira e Hugo de Carvalho Ramos.
Na poesia ficaram imortais os nomes de Alphonsus de Guimaraens, Cruz e Sousa, B. Lopes, representantes do simbolismo entre nós, além de Augusto dos Anjos, José Albano, Catulo da Paixão Cearense, Hermes Fontes, Raul de Leoni, Moacir de Almeida, Luis Carlos, Ronald de Carvalho, Filipe d’Oliveira e muitos outros.

Grandes ensaístas e pensadores
Quanto à história, à crítica literária, à história da literatura e ao jornalismo, não devem ser esquecidos os nomes de Francisco Adolfo de Varnhagem, Capistrano de Abreu, João Ribeiro, Oliveira Lima, Eduardo Prado, Alberto Torres, Tavares Bastos e Rocha Pombo; Silvio Romero, José Veríssimo, Araripe Júnior e Ronald de Carvalho; José do Patrocínio, Alcindo Guanabara, Ferreira de Araújo, Carlos de Laet, Júlio de Mesquita, Medeiros e Albuquerque, Félix Pacheco, João do Rio, Edmundo Bittencourt e Irineu Marinho.
Cumpre destacar ainda três nomes dentre a notável plêiade dos nossos publicistas: Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e Euclides de Cunha.
Joaquim Nabuco(1849-1910), natural de Pernambuco, formado em Direito pela Academia de São Paulo, foi uma das maiores figuras literárias e políticas de seu tempo. Traçou a biografia do pai, o senador Nabuco de Araújo, num livro em que descreve todo o panorama da vida brasileira no Segundo Reinado, Um Estadista do Império. Em Minha Formação, obra-prima de estilo, continuou o livro anterior, traçando a sua autobiografia. Tendo sido um dos maiores batalhadores na luta contra a escravidão, deixou-nos um trabalho importante sobre o sentido histórico e social da memorável campanha: O Abolicionismo. Foi, em suma, uma grande voz democrática, embora fiel à monarquia, que ele desejava continuasse, mas rigorosamente enquadrada nos princípios liberais. Morreu em Washington, quando ali exercia as funções de embaixador do Brasil.
Rui Barbosa(1849-1923) é uma figura da mesma têmpera de Nabuco. Viveu mais e exerceu, por isso mesmo talvez, influência maior. Como escritor, foi um purista da língua, revelando-se um estadista à altura de Vieira. De sua obra literária, além de inúmeros discursos e conferências, é justo apontar as Cartas de Inglaterra e o célebre prefácio à tradução do livro O Papa e o Concílio.
Euclides da Cunha(1866-1909) ocupa lugar proeminente como estilista e pensador. Além disso, seu livro Os Sertões, já traduzido para vários idiomas, é obra em que se confundem o naturalista, o historiador e o sociólogo. Morreu tragicamente, aos 43 anos de idade, legando-nos, contudo, uma obra forte e original.

Três escritores de talento criador
Na fase anterior ao chamado movimento modernista, os nomes mais representativos são os de Graça Aranha, Lima Barreto e Monteiro Lobato. É curioso notar que o primeiro foi um dos expoentes do modernismo, e o último um dos principais opositores à nova tendência.
Graça Aranha(1869-1931) foi, desde os tempos da mocidade, um espírito renovador. Formou-se em Direito na Faculdade de Recife, tendo sido discípulo de Tobias Barreto. O seu aparecimento nas letras data de 1903, com o romance Canaã, onde se sente, pela primeira vez, a nora social e política em nossa ficção. Mais tarde, Graça Aranha publica seu livro A Estética da vida e assume a liderança do movimento renovador da literatura, rompendo com a Academia Brasileira, da qual se afrastou com ruído.
Lima Barreto(1881-1922), descendente de família humilde, conseguiu, entretanto, educar-se, graças à proteção do visconde de Ouro Preto. Exercendo modesta função pública, dedicou-se inteiramente às letras, publicando alguns dos romances mais tipicamente brasileiros de nossa literatura, em que retratou de preferência a população dos subúrbios cariocas, como: Recordações do Escrivão Isaías Caminha, Triste Fim de Policarpo Quaresma e Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá.
Monteiro Lobato (1882-1948) era fazendeiro no interior de São Paulo, quando iniciou a vida de escritor, com a publicação de Urupês. O sucesso foi instantâneo. Vendeu então a fazenda e se fez editor dos próprios livros. Contista de alto merecimento, dos maiores da língua, que aliás dominava com mestria, a parte mais significativa de sua obra é a em que se dirige à infância. Suas personagens, como Narizinho Arrebitado, Emília, Pedrinho, Dona Benta, o Marquês de Rabicó e tantos outros, como que se incorporaram definitivamente às nossas relações mais afetivas. Passaram a viver como gente, como acontece com as criações imortais do espírito humano.

O movimento modernista
Neste movimento, devemos fixar a figura central - Mario de Andrade.
Mario Raul de Morais Andrade(1893-1945) foi um dos espíritos mais completos do Brasil contemporâneo; ao mesmo tempo poeta, romancista, contista, folclorista, crítico literário, crítico e historiador de música, crítico de artes plásticas, cronista, além de notável professor. No domínio da ficção, o seu livro mais interessante é sem dúvida Macunaima, original romance e grande repositório de lendas e tradições de nossa terra.
Aqui encerramos nosso passeio através da literatura brasileira, desde o período colonial aos dias que correm. Os grandes poetas e escritores que citamos já estão mortos. Eles, porém, nos legaram sua obra e seu exemplo. Não nos devemos esquecer desses iniciadores do nosso grande edifício cultural, continuado hoje por um número cada vez maior de homens que se esforçam por elevar ainda mais o nome do Brasil.
[in Tesouros da Juventude. W. M. Jackson, Inc. Editores. Rio, São Paulo, Porto Alegre, Recife. Páginas 145-156. Volume XI, 1963]

ADENDO À LITERATURA BRASILEIRA
(pôster anexo à Revista Veja, edição 1652, de 7 de junho de 2000)

UM PAÍS EM VERSO E PROSA
“A terra, em si, é de muitos bons ares. Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo.”
A Carta de Pero Vaz de Caminha exprime admiração diante da nova terra – vegetação exuberante, animais desconhecidos e uma gente muito diferente. De personagem, aquela gente se transformou no autor que constrói, com suas palavras, o retrato do país. Dos primeiros escritos de José de Anchieta, a literatura brasileira percorre os mais luminosos caminhos, passando pela obra monumental de Machado de Assis e pela originalidade de Clarice Lispector.

CONSCIÊNCIA E SÁTIRA
No século XVII, só havia atividade cultural nos poucos centros de prosperidade, como a Bahia. Ali nasceu Gregório de Matos(1636-1696), nosso primeiro grande poeta. Ele ficou famoso pela sátira, recurso que Tomás Antônio Gonzaga(1744-1810) usaria no século seguinte para criticar a Coroa.

Século XVII

“A cada canto um grande Conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha:
Não sabem governar sua cozinha,
e querem governar o Mundo inteiro!”
[Gregório de Matos, Soneto]

NACIONALISMO E EXALTAÇÃO
Nas primeiras décadas do século XIX, nossos escritores adaptaram o romantismo europeu às condições locais. Eles elegeram o índio como herói e pintaram uma natureza exuberante. Os grandes representantes do movimento são Gonçalves Dias(1823-1864) e José de Alencar(1829-1877).

1843

“Minha terra tem palmeiras
onde canta o sabiá;
as aves, que aqui gorjeiam,
não gorjeiam como lá.”
[Gonçalves Dias, Canção do Exílio]

CONFLITOS NA REPÚBLICA
A República viu surgir a classe média e a organização do operariado. Esses novos tempos, sacudidos por vários conflitos, foram retratados na crônica de Machado de Assis(1839-1908). A Guerra de Canudos(1896-1897) foi a base de Os Sertões,de Euclides da Cunha(1866-1908).

1888

“- Mas então quem é que está aqui doido?
- É o senhor; o senhor é que perdeu o pouco juízo que tinha. Aposto que não vê que anda alguma coisa no ar.
- Vejo; creio que é um papagaio.
- Não; senhor; é umas república. Querem ver que também não acredita que esta mudança é indispensável?
- Homem, eu, a respeito de governo, estou com Aristóteles, no capítulo dos chapéus. O melhor chapéu é o que vai bem à cabeça. Este, por ora, não vai mal.”
[Machado de Assis, em crônica de 11 de maio de 1888]

O CHOQUE DO MODERNISMO
A Semana de Arte Moderna de 22 rompeu com padrões que já se mostravam desgastados. O movimento teve influência do futurismo e do surrealismo. Mário de Andrade(1893-1945) e Manuel Bandeira(1886-1968) são alguns dos grandes escritores da primeira fase modernista.

1928

“No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando.
Si o incitavam a falar exclamava: - Ai! que preguiça!...”
[Mário de Andrade, Macunaíma]

O SERTÃO É O MUNDO
O ambiente rural, que há muito tempo vinha dando material para nossa literatura, ganhou amplitude na perspectiva elaboradíssima de Guimarães Rosa (1908-1967): com ele as questões geográficas, sociais e políticas do sertão se transformaram em fontes de sugestões psicológicas e metafísicas.
1956

“O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem,(...) O sertão está em toda a parte.(...) O sertão é o mundo.
[Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas]

FECHAMENTO E RESISTÊNCIA
Os anos 60 foram a década das vanguardas. Surgiram muitas, mas poucas permaneceram. Entre elas, o concretismo e a literatura de resistência. Essa última, uma das respostas ao fechamento imposto pelos militares, denunciava o medo, o autoritarismo e a arbitrariedade do regime.

1975

“A vida nos a amassamos em sangue
e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual. A vida
nós a fazemos nossa
alegre e triste, cantando
em meio à fome
e dizendo sim
– em meio à violência e à solidão dizendo
sim (...)”
[Ferreira Gullar, Digo Sim]


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