O Modernismo



O Modernismo brasileiro contou com vários fatores que lhe suscitaram a eclosão. Em primeiro lugar, uma atmosfera propícia determinada pelas comemorações do centenário de nossa autonomia política. Em segundo lugar, o aparecimento de vários movimentos de vanguarda na Europa, depois da primeira grande guerra. Em terceiro lugar, uma figura aglutinadora, que foi Graça Aranha, capaz de reunir à sua volta os diversos grupos que se associaram no movimento de insurreição cultural.
É preciso acentuar que o fim da guerra suscitou na França um movimento revisionista dos valores literários, ao mesmo tempo em que, na Rússia, se processou a grande transformação social e política com a implantação do comunismo.
Em fevereiro de 1922, por ocasião da Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo, Graça Aranha afirmou que a remodelação estética do Brasil havia iniciado na música com Villa-Lobos, na escultura de Brecheret, na pintura com di Cavalcanti, Anita Malfati, Vicente do Rego Monteiro, Zina Aita, e na jovem e ousada poesia, que seria a libertação da arte dos perigos que a ameaçavam no inoportuno arcadismo, do academicismo e do provincianismo..
O crítico Wilson Martins distingue no Modernismo três períodos literários. Primeiro, de 1922 a 1928, consagrado à criação poética, quando aparecem Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade(1893-1945); o Pau-Brasil, de Oswald de Andrade(1890-1953); e Martim Cererê, de Cassiano Ricardo(1895-1974). Segundo, de 1928 a 1939, consagrado à ficção, quando aparecem: 1) os romances do Nordeste, com José Américo de Almeida(1887-1980), José Lins do Rego(1901-1957), Jorge amado(1912- ), Rachel de Queiroz(1910- ), Graciliano Ramos(1892-1953); 2) os romances psicológicos de Érico Veríssimo(1905-1975), Lúcio Cardoso(1913-1968), José Geraldo Vieira(1897-1977), Otávio de Faria(1908- ), Ciro dos Anjos(1906- ), Cornélio Pena(1896-1958); 3) romances urbanos de Marques Rebelo(1907-1973) e Amando Fontes(1899-1967). Terceiro, de 1939 a 1945, com a predominância do espírito crítico, cujas figuras mais destacadas seriam: Álvaro Lins(1912-1970), Sérgio Milliet(1896-1966), Antônio Cândido(1918- ), Afonso Arinos de Melo Franco (1905), Wilson Martins(1921- ), Afrânio Coutinho(1911- ) e Eugênio Gomes(1897-1972).

MODERNISMO – 1º TEMPO – 1922-1930
MANUEL BANDEIRA

DESENCANTO

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gora, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca

Eu faço versos como quem morre
[A Cinza das horas, Teresópolis, 1912]
[in Os livros da UFSC, cit]

MODERNISMO – 1º TEMPO – 1922-1930
MANUEL RAUL DE MORAIS BANDEIRA(São Paulo,1893-1945)

LIRA PAULISTANA (PAULICÉIA DESVAIRADA)

Na rua aurora eu nasci
Na aurora da minha vida
E numa aurora cresci

No largo do Paisandu
Sonhei, foi luta renhida,
Fiquei pobre e me vi nu.

Nesta rua Lopes Chaves
Envelheço, e envergonhado
Nem sei quem foi Lopes Chaves.

Mamãe! me dá essa lua,
Ser esquecido e ignorado
Com esses nomes de rua.

MODERNISMO – 2º TEMPO – 1930 – 1945
MÁRIO QUINTANA ( Alegrete, 1906-Porto Alegre,1994)

O AUTO-RETRATO

No retrato que me faço
- traço a traço -
Às vezes me pinto nuvem,
Às vezes me pinto árvore...

Às vezes me pinto coisas
De que nem há mais lembrança...
Ou coisas que não existem
Mas que um dia existirão...

E, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
Minha eterna semelhança,

No final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!
[in Livros da UFSC, cit]


MODERNISMO – 2º TEMPO
PROSA REGIONAL (Bahia) – 1930 – CICLO DO CACAU

Tem-se JORGE AMADO (Bahia, 1912)

MODERNISMO – 2º TEMPO – 1930 – 1945
GRACILIANO RAMOS
, com Caetés, São Bernardo, Memórias do Cárcere, e outros

MODERNISMO - 2º TEMPO - PROSA

PROSA REGIONALISTA DE 1930 – CICLO URBANO
JORGE AMADO
, com A Morte de Quincas Berro d’Água, Gabriela Cravo e Canela, Dona flor e seus dois maridos, e outros.

MODERNISMO - 3º TEMPO – POESIA
JOÃO CABRAL DE MELO NETO (Recige 1920,1999)
, com as obras Morte e Vida Severina, A Educação pela Pedra, Museu de Tudo, duas Águas, etc.

MORTE E VIDA SEVERINA (trecho)

O meu nome é Severino,
Não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
Que é santo de romaria,
Deram então de me chamar
Severino de Maria:
Como há muitos Severinos
Com mães chamadas Maria,
Fiquei sendo o da Maria
Do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
Há muitos na freguesia,
Por causa de um coronel
Que se chamou Zacarias
E que foi o mais antigo
Senhor desta sesmaria
(...)
[in Livros da UFSC, cit.]

POEMAS DE AUTORES BRASILEIROS E OUTROS
COMPLEMENTO DA LITERATURA BRASILEIRA

A FAZENDA
(Paulo Setúbal – 1893-1937)
Seis horas... Salto do leito.
Que céu azul! Que bom ar!
Ah! como eu sinto no peito,
moço, vivo, satisfeito,
o coração a cantar!

No meu quarto, alegre e claro,
há rosas e girassóis;
e eu, com enlevo, reparo,
na alvura dos seus lençóis...

Que doce encanto, e que graça,
nesta simpleza aldeã,
têm, sobre os vãos da vidraça,
leves cortinas de cassa,
bailando ao sol da manhã!

E da florida janela
que eu abro de par em par,
- verde painel, larga tela,
da cor mais viva e mais bela,
desdobra-se a meu olhar!
(...)
[in Tesouros de Juventude, vol. 4]

MEU SONORO PASSARINHO
(Tomás Antônio Gonzaga – 1744-1807)

Meu sonoro passarinho,
se sabes do meu tormento,
e buscas dar-me, cantando ,
um doce contentamento,

Ah! não cantes mais, não cantes,
se me queres ser propício;
eu te dou em que me faças
muito maior benefício.

Ergue o corpo, os ares rompe,
procura o porto da Estrela,
sobe à serra e, se cansares,
descansa num tronco dela

Toma de Minas a estrada,
na Igreja Nova, que fica
ao direito lado, e segue
sempre firme a Vila-Rica.
(...)
[in Tesouros, vol. 4]

A MORTE DE LINDÓIA
(Basílio da Gama – 1740-1795)

Um frio susto corre pelas
De Caititu, que deixa os seus no campo;
E a irmã por entre as sombras do arvoredo
Busca co’a vista, e treme de encontrá-la.
Entram enfim na mais remota e interna
Parte do antigo bosque, escuro e negro.
Onde ao pé duma lapa cavernosa,
Cobre uma rouca fonte, que murmura,
Curva latada de jasmins e rosas.
Este lugar delicioso e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimosas flores;
Tinha a face na mão e a mão no tronco
Dum fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrosca no seu corpo
Verde serpente, lhe passeia e cinge
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim sobressaltados
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la, e temem
Que desperte assustada e irrite o monstro
E fuja, e apresse no fugir a morte.
(...)
[in Tesouros, vol. 4]

SONETO
(Alphonsus de Guimarães – 1870-1921)

A desventura de minh’alma é tanta
Que lhe não basta, flor, para acalmá-la
O teu sorriso angelical de santa
O hinário celestial da tua fala.

O sol, como um amado, se quebranta;
A tarde morre envolta em véus de opala...
A harpa do dia, adonde um ano canta,
A última corda espiritual estala.

Penso nos dias idos, nesse doce,
Leve oscilar das plumas da esperança,
Como se moço e não bem velho eu fosse.

E alguém, que és tu, me diz: - Pobre criança,
O teu sonho era luz: Divinizou-se...
Toma as muletas de ancião. Descansa!
[in Tesouros da Juventude, vol. 4]

SONETO DE NATAL
(Machado de Assis – 1839-1908)

Um homem, - era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, -
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a vida dança e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga.
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?!”
[in Tesouros, vol. 3]

NATAL
(Olavo Bilac – 1865-1918)

Jesus nasceu! Na abóbada infinita
Soam cânticos vivos de alegria;
E toda a vida universal palpita
Dentro daquela pobre estrebaria...

Não houve sedas, nem cetins, nem rendas
No berço humilde em que nasceu Jesus...
Mas os pobres trouxeram oferendas
Para quem tinha de morrer na Cruz.

Sobre a palha, risonho, e iluminado
Pelo luar dos olhos de Maria,
Vede o Menino-Deus, que está cercado
Dos animais da pobre estrebaria.

Não nasceu entre pompas reluzentes;
Na humildade e na paz deste lugar,
Assim que abriu os olhos inocentes,
Foi para os pobres seu primeiro olhar.
(...)
Natal! Natal! Em toda a Natureza
Há sorrisos e cantos, neste dia...
Salve, Deus da Humildade e da Pobreza,
Nascido numa pobre estrebaria!
[in Tesouros, vol. 3]

NAVIO NEGREIRO
(Castro Alves – 1847-1871)

‘Stamos em pleno mar!... Doido no espaço
brinca o luar – dourada borboleta,
e as vagas após ele correm... cansam
como turba de infantes inquieta!

‘Stamos em pleno mar... abrindo as velas
ao quente arfar das virações marinhas,
veleiro brigue corre à flor dos mares
como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? Onde vai? Das naus errantes
quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? ...
Neste Saara os corcéis o pó levantam,
galopam, voam, mas não deixam traço...
(...)
Esperai!... Esperai! ... Deixai que eu beba
Esta selvagem , livre poesia...
orquestra – é o mar, que ruge pela proa
e o vento, que nas cordas assobia...
(...)
[in Tesouros, vol. 3]

SER MÃE
(Coelho Neto – 1864 – 1934)

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
O coração; ser mãe é ter no alheio
Lábio que suga o pedestal do seio
Onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
Sobre um berço dormido; é ser anseio,
É ser temeridade, é ser receio,
É ser força que os males equilibra.

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
Espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho.

Ser mãe é andar chorando num sorriso,
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada,
Ser mãe é padecer num paraíso.
[in Tesouros, vol. 3]

A LEOA
(Raimundo Correia – 1860-1911)

Não há quem a emoção não dobre e vença,
lendo o episódio da leoa brava,
que, sedenta e famélica bramava,
vagando pelas ruas de Florença.

Foge a população espavorida,
e na cidade deplorável e erma
topa a leoa só, quase sem vida,
uma infeliz mulher débil e enferma.

Em frente à fera no estupor do assombro,
não já por si tremia, ela, a mesquinha,
porém porque era mãe, e o peso tinha,
sempre caro p’ras mães, de um filho ao ombro.
(...)
Mas a leoa, como se entendesse
o amor da mãe, incólume deixou-a ..
É que esse amor até nas feras vê-se!...
E é que era mãe talvez essa leoa!
[in Tesouros, vol. 2]

VELHO TEMA
(Vicente de Carvalho – 1866-1924)

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais ainda,
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
[in Tesouros, vol. 2]

CANÇÃO DO TAMOIO
(Gonçalves Dias – 1823(4?)-1864)

Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida;
Viver é lutar.
A vida é combate
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos,
Só pode exaltar.
(...)
Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D’imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d’ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pios que o trovão
(...)
As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate.
Aos fortes, aos bravos
Só pode exaltar.
[in Tesouros, vol. 2]

NÃO ÉS TU
(Almeida Garret – 1799-1854)

Era assim tímido esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o poete altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.

Era assim; e seu falar,
Ingênuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração.
(...)
[in Tesouros, vol. 10]

À MINHA MÃE
(Alvares de Azevedo – 1831-1852)

És tu, alma divina, essa Madona
Que nos embala na manhã da vida,
Que ao amor indolente se abandona
E beija uma criança adormecida;

No leito solitário és tu quem vela,
Trêmulo o coração que a dor anseia,
Nos ais do sofrimento inda mais bela
Pranteando sobre uma alma que pranteia;

E se pálida sonhas na ventura
O afeto virginal, da glória o brilho,
Dos sonhos no luar, a mente pura
Só delira ambições pelo teu filho!

Pensa em mim, como em ti saudoso penso,
Quando a lua no mar se vai doirando;
Pensamento de mãe é como incenso
Que os anjos do Senhor beijam passando.
(...)
[in Tesouros, vol. 10]

PRELÚDIO
(Bernardo Guimarães – 1825-1884)

Neste alaúde, que a saudade afina,
Apraz-me às vezes descantar lembranças
De um tempo mais ditoso;

De um tempo em que entre sonhos de ventura
Minha alma repousava adormecida
Nos braços da esperança.

Eu amo essas lembranças, como o cisne
Ama seu lago azul, ou como a pomba
Do bosque as sombras ama.

Eu amo essas lembranças; deixam n’alma
Um quê de vago e triste, que mitiga
Da vida os amargores.

Assim de um belo dia que esvaiu-se,
Longo tempo nas margens do ocidente
Repousa a luz saudosa.
(...)
[in Tesouros, vol. 5]

CISNES
(João Salusse – 1872-1948)

A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós, constantemente,
Um lago azul sem ondas, sem espumas.

Sobre ele, quando desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,

Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!
[in Tesouros, vol. 5]

MEUS OITO ANOS
(Casimiro de Abreu – 1837-1860)

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
- O mar é lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!
(...)
[in Tesouros, vol. 5]

REGRESSO AO LAR
(Guerra Junqueiro – 1850 – 1923)

Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar...
Foi há vinte? ... há trinta? ... Nem eu sei já quando! ...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para me eu lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh! a ingênua alma tão desiludida!
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas de me adormentar!...
(...)
Canta-me cantigas, manso, muito manso...
Tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh’alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!...
[in Tesouros]

SONETO
(Gregório de Matos Guerra – 1633 – 1696)

Meu Deus, que estais pendente de um madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
E em cuja santa lei quero morrer
Animoso, constante, firme e inteiro.

Nesse lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um pai, manso cordeiro.

Mui grande é vosso amor e o meu delito:
Porém pode Ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar,
Que, por mais que pequei, neste conflito,
Espero em vosso amor de me salvar.
[in Tesouros, vol. 5]

A LÁGRIMA
(Guerra Junqueiro – 1850 – 1923)

Manhã de junho ardente. Uma encosta escalvada,
Seca, deserta e nua, à beira duma estrada.

Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha,
Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha.

Sobre uma folha hostil duma figueira brava.
Mendiga que se nutre a pedregulho e lava,

A aurora desprendeu, compassiva e divina,
Uma lágrima etérea, enorme e cristalina.

Lágrima tão ideal, tão límpida que, ao vê-la,
De perto era um diamante e de longe uma estrela.
(...)
[in Tesouros, vol.9]

A AMAZÔNIA
(Humberto de Campos – 1886 – 1934)

Este é o palácio da Mãe d’Água... O dia
Não corusca de sol como corusca
Seu mais frágil portal, que espanta e ofusca
De encantados metais e pedraria.

Ai, entretanto, de quem corre, e o busca!
Ai de quem, ao transpor-lhe a frontaria
Tomba lá dentro, com volúpia, brusca,
Arrebatado pela verde orgia!

Mães e noivas do Sul, ao noivo e ao filho,
Se andam no Euxino, entre marnéis e escolhos,
Dizei que fujam de frontais em brilho.

Lá vive a Iara, a náiade-cetáceo...
E desgraçado de quem põe os olhos
Nos traidores portais desse palácio!...
[in Tesouros, vol. 9]

DA RESSURREIÇÃO
(José de Anchieta – 1534-1597)

Ó Mãe sempre virgem, ó virgem fecunda,
de nossos prazeres cansamos, o Ave!
com que quis fechar-se no vosso conclave
o Verbo, do Padre pessoa segunda.

De novo, Senhora, recebe vossa alma,
Ó Ave sagrada de eterna harmonia!
pois o que foi morto, com grande alegria,
a morte vencida, ressurge com palma.
(...)
Ó madre de vida, pois tendes tal dia,
fazei-nos dar vida, que mortos jazemos,
e livres da morte, com Jesus tornemos
à vida da graça, com toda a alegria!
[in Tesouros, vol. 9]

O PEQUENO TRAVESSO
(Artur Azevedo – 1855 – 1908)

Bem feito! Jorge que era um pequeno mau...
Desde manhã esse menino andava
Pelo pomar atrás de um pica-pau
Onde uma rola que ao azul passava.
A mãe ralhava-o com ternura e amor:
“Deixa, meu filho, em paz os passarinhos.
Por que mataste esta inocente flor
E esses implumes pássaros nos ninhos?”
Mas não tomava tento esse pequeno
De faces rechonchudas e vermelhas.
Disse-lhe um dia um lírio alvo e sereno:
“Bem merecias um puxão de orelhas.”
Um dia ele com outros companheiros
Partiram para a pesca; o sol nascia
E rutilava pelos castanheiros,
Que uma neblina escassa ainda cobria.
(...)
[in Tesouros, vol. 7]

DIZ DO AMOR QUE O FERIU INESPERADAMENTE
(Francisco Petrarca – 1304-1374)
(Tradução de Jamil Almansur Haddad)

Era o dia em que o sol escurecia
Os raios por piedade ao seu Fator.
Quando eu me vi submisso ao vivo ardor
De teu formoso olhar que me prendia.

Defender-me do golpe eu não queria;
Desabrigado achou-me então Amor;
Por isso acrescentou-se a minha dor
À dor universal que assaz crescia.

Achou-me Amor de todo desarmado,
Pelos olhos, ao peito aberta a estrada,
Olhos que se fizeram, mar de pranto.

Porém a sua ação não o honra tanto:
Ferir-me, sendo inerme o meu estado,
Não te visar quando eras tão armada.
[in Tesouros, vol. 6]

TEMEI, PENHAS
(Cláudio Manuel da Costa – 1729 0 1789)

Destes penhascos fez a natureza
O berço, em que nasci: oh! quem cuidara
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!

Amor, que vence os tigres, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra o meu coração guerra tão rara.
Que não me foi bastante a fortaleza.

Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano:

Vós, que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei; que amor tirano
Onde há mais resistência, mais se apura
[in Tesouros, vol. 6]

O MARROEIRO
(Catulo da Paixão Cearense)

Marruêro, eu sou marruêro!...
Nascendo, cumo tingui,
fui ruim, cumo piranha,
mas pió que sucuri.

Pixuna daquelas banda,
véve a gente a campiá!...
Deus fez o home, marruêro,
pra vivê sempre a lutá.

Meu pai foi bicho timive
e eu fui timive tombém!
O pinto já sai do ovo
cum a pinta que o galo tem.

Se meu pai foi marruêro,
havéra de eu tá na toca,
a rapá no caitetú
a massa da mandioca?!
(...)
[in Tesouros, vol. 6]

AVATAR
(Ronald de Carvalho – 1893-1935)

Antes, a alma que tenho andou perdida.
Por que mundo rolou, que mão sutil
Pôs tão nobre fulgor, e estranha vida,
Nesse bocado de ouro e barro vil?

Decerto, árvore foi: verde jazida
De ninhos, sob o céu de espuma e anil,
E foi grito de horror, na ave ferida,
E, na canção de amor, sonho febril!

Foi desespero, sofrimento mudo,
Ódio, esperança que tortura e inferna;
e. depois de exsurgir, triste, de tudo,

veio para chorar dentro em meu ser,
a amarga maldição de ser eterna,
e a dor de renascer, quando eu morrer!
[in Tesouros, vol. 13]

TEMPO DAS ÁGUAS
(Mário de Andrade – 1893-1945)

O gado estava amoitando na capoeira.
Agora é a gupiara agachada no lombo do morro
Vazia que não tem mais fim.

De repente faz cócega na cara da gente
A mão de chuva do vento.
Tempo perdido se afobar
Ela já vem na cola do liburno.
Olha a folhinha seca.
Salta que salta ressaibada, carcoveia,
Desembestou que nem potranca chucra pasto fora.
Você quase nem tem tempo de vestir a capa boa
E despenca a chuva de Deus.
(...)
Em casa,
No brim novo com cheiro de ribeirão
Você deita na rede da varanda,
Chupita o traço da abrideira...
E se conversa.

E se conversa sobre a baixa do café.
[in Tesouros, vol. 1]
(ressaibada: de ressaibo, sabor proveniente de uma substância que aderiu ao vaso por onde se bebe ou come. Sabor ou gosto ruim. Ranço ressentimento. Manha de besta.)

AS POMBAS
(Raimundo Correia – 1860-1911)

Vai-se a primeira pomba despertada
Vai-se outra mais... mais outra... enfim, dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sangüínea e fresca, a madrugada.

E à tarde, quando a rígida noitada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada.

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem...Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...
[in Tesouros, vol. 11]
(ruflar=encrespar)

MAL SECRETO
(Raimundo Correia – 1860-1911)

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo que punge, tudo que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri talvez existe
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!
[in Tesouros, vol. 11]

O MURO
(Alberto de Oliveira – 1857-1937)

É um velho paredão, todo gretado,
Roto e negro, a que o tempo uma oferenda
Deixou num cacto em flor ensangüentado
E num pouco de musgo em cada fenda.

Serve há muito de encerro a uma vivenda;
Protegê-la e guardá-la é seu cuidado;
Talvez consigo esta missão compreenda,
Sempre em sue posto, firme e alevantado

Horas mortas, a lua o véu desata,
E em cheio brilha; a solidão se estrela
Toda de um vago cintilar de prata;

E o velho muro, alta a parede nua,
Olha em redor, espreita a sombra, e vela,
Entre os beijos e lágrimas da lua.
[in Tesouros, vol.17]

PEQUENINO MORTO
(Vicente de Carvalho – 1866-1924)

Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro...
Pequenino, acorda!

Como o sono apaga o teu olhar inerte
Sob a luz da tarde tão macia e grata!
Pequenino, é pena que não possas ver-te...
Como vais bonito, de vestido novo
Todo azul-celeste, com debruns de prata!
Pequenino, acorda! E gostarás de ver-te
De vestido novo.

Como aquela imagem de Jesus, tão lindo,
Que até vai levado em cima dos andores,
Sobre a fronte loura um resplendor fulgindo,
- Com a grinalda feita de botões de rosas
Trazes na cabeça um resplendor de flores...
Pequenino, acorda! E te acharás tão lindo
Florescido em rosas!
(...)
[in Tesouros, vol. 17]

CANTIGA PRAIANA
(Vicente de Carvalho – 1866-1924)

Eu sou como aquela fonte
Que vai, tão triste, a chorar:
Desce da encosta do monte,
Corre em procura do mar.

Perdição da minha vida,
Meu amor! bem compreendo
Onde vou nesta descida...
E vou chorando e descendo.

Pobre da fonte, baqueia
Na margem, sempre a chorar,
E turva, turva de areia,
Corre...corre para o mar...

Perdição de minha vida,
Amor que me vais levando!
Terá fim esta descida?
Há de ter...Mas onde? e quando?

Com pouco mais que descais
Lá vai a fonte parar:
Chega na beira da praia...
Morre nas ondas do mar...


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