Parnasianismo

O Parnasianismo, surgido na França, com o propósito de reagir contra o subjetivismo poético, pretendendo criar uma poesia impessoal, de clara perfeição de forma, teve seus seguidores no Brasil com Alberto de Oliveira(1857-1937), Olavo Bilac(1865-19180, Raimundo Correia(1859-1911), Luís Delfino (nasceu no Desterro, SC e viveu no rio de Janeiro,1834-1910) e Vicente de Carvalho(1866-1924).
Alberto de Oliveira publicou Canções Românticas, Meridionais, O Livro de Ema, Por Amor de uma Lágrima, Alma Livre, Versos e Rimas, reunindo mais tarde em quatro séries de Poesias toda a sua obra poética a que devemos acrescentar a Póstuma, publicada pela Academia Brasileira, em 1944. Olavo Bilac, tendo estreado com Poesias, em 1888 – constituído de Panóplias, Via Láctea e Sarças de fogo – terminou com o volume Tarde a sua obra poética. Grande prosador, primoroso orador, Bilac publicou ainda crônicas, contos, conferências e discursos, além de um Dicionário de Rimas e um Tratado de Versificação, ambos de colaboração com Guimarães Passos (1867-1909), seu amigo e companheiro de geração, excelente poeta, autor de Versos de um Simples e Horas Mortas. Raimundo Correia completa com Bilac e Alberto de Oliveira a tríade parnasiana; publicou Sinfonias, Versos e Versões, Aleluias, Poesias.
Luís Delfino, que deixou uma obra copiosa, dispersa em jornais e revistas, além de muitos inéditos, não publicou livro. Só muito depois de sua morte apareceram, reunindo-lhe o vasto acervo romântico, parnasiano e simbolista, os volumes Algas e Musgos, Poesias Líricas, Intimas e Aspásias, Atlante Esmagado, Rosas Negras, Arcos de Triunfo, Esboço da Epopéia Americana, Imortalidades, Posse Absoluta. A tríade parnasiana não encerra em si os mais altos poetas do Parnasianismo brasileiro: Vicente de Carvalho está na mesma linha de grandeza de Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira, com os seus Poemas e Canções.

LUÍS DELFINO
Luís Delfino dos Santos nasceu a 25 de agosto de 1834, na cidade de Desterro, hoje Florianópolis, SC. Iniciou seus estudos no colégio dos Jesuítas. Aos 16 anos, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso de Humanidades e ingressou na Faculdade de Medicina, na qual se graduou em 1857, sendo o orador da turma. Iniciou logo brilhante carreira de clínico, que lhe proporcionou invejável prestígio profissional e vultosa riqueza. Viveu rodeado de conforto. Portava-se como um cavalheiro. Era bondoso e conciliador de temperamento. Espírito culto e aristocrático,desenvolveu requintado estilo de vida, mas conservou-se avesso ao fervilhante convívio das rodas boêmias, preferindo receber os intelectuais em sua casa. Registra-se uma passagem sua pela vida política, eleito senador opor Santa Catarina, em 1891, para a Constituinte Republicana. Em política, era defensor de idéias liberais, pregando até fanaticamente a liberdade. Integrou o movimento abolicionista, tendo vários poemas dedicados à valorização do escravo como pessoa humana.
Desde jovem escreveu poemas. Versejava com extrema facilidade. Não tendo publicado nenhum livro em vida, mesmo porque não precisava já que vivia da medicina, sua vasta produção ficou dispersa em jornais e revistas. Foi, contudo, considerado “o príncipe dois poetas brasileiros”. Iniciou sua produção no auge do romantismo, prosseguindo como parnasiano. Foi amigo e contemporâneo de Cruz e Sousa. Faleceu no rio a 31 de janeiro de 1910.
Seu filho Tomaz Delfino dos Santos publicou postumamente 14 volumes de poemas reunidos: algas e Musgos, Poemas, Poesias Líricas, Intimas e Aspásias, A Angústia do Infinito, Atlante Esmagada, Rosas Negras, Esboço da Epopéia Americana, Arcos do Triunfo, Imortalidade(Livro de Helena, I), Imortalidades(Livro de Helena, II), Imortalidades(Livro de Helena – A Lenda do Éden, III), Posse Absoluta, Cristo e a Adúltera.
[in Os livros da UFSC 97 e ACAFE 97, 1º e 2º semestre, volume 1, Curso e Colégio Energia]

O CÉU
(Luis Delfino)

Eu que desejo? – Se este céu falasse,
Este céu transparente, e quasi austero
Com seus milhões de sóis? O reverbero
Dessas estrelas dizem-me: - que eu passe.

Queremos mais do que promete a vista;
Queremos mais do que nos mostra o espaço!...
E esse espaço da terra inda o que dista!...
Há mesmo tédio em vê-lo: há já cansaço:

Nossa funda ignorância nos contrista:
Mesmo vivendo sempre aqui, que faço?
Só contemplar a obra divina? – Eu quero

É ver, contemplar Deus, e face a face
Tê-lo ante mim; e quando o interrogasse,
Ouvi-lo... – mas, em vão, Helena, o espero!...

A PRIMEIRA LÁGRIMA
( Luis Delfino)

Quando a primeira lágrima, caindo,
Pisou a face da mulher primeira,
O rosto dela assim ficou tão lindo,
E Adão beijou-a de uma tal maneira,

Que Anjos e tronos pelo espaço infindo,
Qual rompe a catadupa prisioneira,
As seis asas de azul e d’ouro abrindo,
Rolaram numa esplêndida carreira.

Alguns, poisando à próxima montanha,
Queriam ver de perto os condenados,
Da dor fazendo uma alegria estranha.

E ante o rumor os ósculos dobrados,
Todos queriam punição tamanha,
Ansiosos, mudos, trêmulos, pasmados...
[in Tesouros da Juventude, vol. 16]


LÍNGUA PORTUGUESA
(Olavo Bilac – 1865-1918)

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o tom e o silvo da procela,
E o arrôlo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
[in Tesouro da Juventude, volume 10]

“O Caçador de Esmeraldas”, constitui o grande poema da moderna literatura brasileira. Nele Olavo Bilac recorda, através do sonho inatingido de Fernão Dias Paes, a epopéia dos bandeirantes, que empurraram para o Oeste os limites do Brasil e plantaram cidades pelo caminho, enquanto buscavam metais e pedras preciosas.

O CAÇADOR DE ESMERALDAS
(Olavo Bilac – 1865-1918)

Foi em março, ao findar das chuvas quase à entrada
Do outono, quando a terra, em sede requeimada,
Bebera longamente as águas da estação,
- Que, em bandeira, buscando esmeraldas e prata
À frente dos peões filhos da rude mata,
Fernão Dias Paes Leme entrou pelo sertão.
[Assim começa Bilac o seu poema. Depois de retratar o Brasil anterior ao descobrimento e às explorações costeiras, descreve o interior, que Fernão Dias deverá percorrer, à procura de esmeraldas:]
Para o norte inclinando a lombada brumosa,
Entre os mateiros jaz a serra misteriosa;
A azul Vupabuçu beija-lhe as verdes faldas,
E águas crespas, galgando abismos e barrancos
Atulhados de prata, umedecem-lhe os flancos
Em cujos socavões dormem as esmeraldas.
[in Tesouro da Juventude, volume 3]

OUVIR ESTRELAS
(Olavo Bilac – 1865-1918)

- Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso! – E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: - Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?

E eu vos direi: - Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode Ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.
[in Tesouro da Juventude, volume 8]

UBI NATUS SUM
(Luís Delfino – 1834-1910)

Na rua Augusto, em Santa Catarina,
A cama em cima duns pranchões de pinho,
Aí nasci. Foi este o humilde ninho
De uma criatura mórbida e franzina.

No fundo de uma loja pequenina,
O lençol branco a arder na luz do linho,
Da minha mãe, da minha mãe divina
Tive o primeiro tépido carinho.

Meu pai foi sempre a honra em forma humana,
Tinha a virtude máscula e romana,
Não era austero só, era feroz.

Trabalhava incessante, noite e dia,
Como um leão seu antro defendia,
E era uma pomba para todos nós...
[in Tesouros da Juventude, volume 14]

REGIONALISMO
O regionalismo literário trazendo para o conto, a novela e o romance as peculiaridades de uma região, na singularidade das paisagens, dos tipos, da fala e dos costumes, deu ao Brasil algumas figuras importantes: Valdomiro Silveira(1873-1941), autor de várias coletâneas de contos: OS Caboclos, Nas Serras e nas Furnas, Mixuangos, Leréias; Coelho Neto (1864-1934), autor de Sertão, Treva, Banzo, Rei Negro; Afonso Arinos(1868-1916), autor de Pelo Sertão, Lendas e Tradições Brasileiras, Histórias e Paisagens; Alcides Maia(1878-1944), autor de Tapera, ruínas Vivas e alma Bárbara; Viriato Correia(1884-1967), autor de Minaretes, Contos do Sertão, Histórias Ásperas e A Balaiada, além de ter escrito para teatro várias peças de inspiração regionalista como A Juriti e Sertaneja; Simões Lopes Neto(1865-1916), autor de Lendas do Sul, contos Gauchescos, Cancioneiro Guasca.
Coelho Neto, depois de enorme popularidade que o consagrou como o príncipe dos prosadores brasileiros, foi combatido pelas novas gerações, ao longo da polêmica que se travou a partir de 1924, com o modernismo literário. Mais de cem obras compõem a sua bibliografia, entre contos, novelas, romances, discursos, crônicas, conferências e recordações da vida literária. Poucos escritores terão tido posição mais destacada que o mestre de Rei Negro. Às contestações do modernismo, que lhe negaram a obra, contrapuseram-se os juízos serenos de Brito Broca e Otávio de Faria, que lhe reexaminaram o legado de arte, para reconhecer os seus altos merecimentos.
[in Biblioteca, Educação e Cultura – Literatura, por Josué Montello, MEC-FENAME-BLOCH, 1980]


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