Quinhentismo


ERA COLONIAL – 1500-1836
Nos três primeiros séculos a nossa Literatura foi um prolongamento da Literatura Portuguesa. Até a emancipação política, o que se escreveu no Brasil obedecia, em linhas gerais, aos modelos artísticos, literários e ideológicos impostos pelo colonizador. Assim, a Era Colonial da Literatura Brasileira é também denominada Era Dependente ou Era Luso-Brasileira. É, na realidade, uma literatura portuguesa realizada fora de Portugal, tanto assim que há autores que figuram em ambas as literaturas(Pe. Vieira, Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga). Somente no fim do século XVIII começam a emergir traços mais nítidos de uma fisionomia literária própria, diferenciada da Metrópole, apoiada em valores nativos, indígenas, africanos, e no sentimento naturista. O índio e a natureza foram os esteios da afirmação de nossa nacionalidade literária, especialmente a partir do período joanino(1808).
O colonizador português, além de impor seus interesses econômicos, impôs também sua língua, religião, costumes e reprimiu os valores autóctones, impedindo a formação e expansão de instituições e costumes opostos aos seus. A proibição da imprensa, o analfabetismo generalizado, a pobreza material e educacional, a escravidão, a extensão continental do país foram entraves quase intransponíveis à vida cultural e à atividade artística. Não havia jornais, nem bibliotecas; os poucos livros que circulavam na colônia eram destinados à catequese ou à educação elementar nos colégios jesuíticos.

O QUINHENTISMO
O PERÍODO DE INFORMAÇÃO
A LITERATURA DE VIAGENS

Não se pode falar em “literatura”, ou atividade literária em sentido próprio, no Brasil do século XVI. As crônicas de viagem e os escritos informativos, inseridos no âmbito da expansão ultramarina portuguesa, carecem de “literariedade”. Pertencem mais ao campo da História e são lavrados em linguagem denotativa, referencial pela necessidade de tratamento objetivo dos assuntos.
Esses escritos são prolongamento da literatura de viagens, gênero largamente cultivado em Portugal e em toda a Europa no Quinhentismo. É literatura sobre o Brasil, pré-história das nossas letras, que alguns autores omitem da nossa história literária por escrúpulo estético, dada a inexistência da palavra-arte.
A literatura informativa, descrevendo diretamente a paisagem, o índio e os primeiros grupos sociais, documenta as intenções do colonizador: conquistar, explorar, dominar, apresar escravos, comerciar gananciosamente, sob o disfarce da difusão do Cristianismo, ideal que justificava, perante a consciência dos navegantes e exploradores, todos os atos, mesmo os mais desumanos.
Os escritos decorrentes das viagens de reconhecimento eram simples relatórios ou reportagens destinados a dar a conhecer aos superiores em Lisboa as possibilidades de exploração e colonização da terra recém-descoberta. Expressam muitas vezes uma visão paradisíaca, associando a nova terra aos mitos edênicos (de éden, paraíso) e às lendas do Eldorado. Refletem o deslumbramento do europeu diante da exuberância da natureza tropical, o fervor de quem imagina tesouros e lugares edênicos e, na vertente oposta, a visão “realista”, terra-a-terra, de quem avalia as dificuldades para explorar, colonizar e catequizar.
Identificam-se no Quinhentismo quatro modalidades de textos:
1.textos informativos, voltados para a descrição da terra e do selvagem, privilegiando os aspectos geográficos e etnográficos(Caminha, Pero Lopes de Souza);
2.textos propagandísticos, que acrescem ao propósito informativo a intenção de atrair colonos e investimentos, “exagerando” nas descrições das virtudes e
potencialidades da terra (Gândavo, Gabriel Soares de Souza e Ambrósio Fernandes Brandão):
3.textos catequéticos, que aliam a preocupação com a conversão religiosa do Índio, à preservação dos costumes e das moral ibérico-jesuíticos, sob influxo dos ideais contra-reformistas do concílio tridentino, e os interesses do Estado português na obra de colonização (Nóbrega, Anchieta, Fernão Cardim).
4.textos de viajantes estrangeiros, não-portugueses, inventariando as riquezas e possibilidades da terra(André Thevet, Jean de Lery, Hans Staden, Américo Vespuci, Pigafeta, João Antônio Andreoni ou Antonil).
A carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei D. Manuel sobre o “achamento” do Brasil
Escrita sob a forma de diário de bordo, datada de 1º de maio de 1500, a Carta de Caminha revela exemplarmente as intenções do colonizador, suas primeiras reações diante da terra e do índio e uma mentalidade em que se fundiam valores medievais e renascentistas.
Alguns pontos importantes da Carta de Caminha são:
A simpatia pela terra e pelo índio, o deslumbramento diante da exuberância da natureza tropical, a “visão do paraíso”, que faz de Caminha um precursor do sentimento naturista e do ufanismo.
Contemplação do índio sob a ótica cristã, concedendo-o como um ser predisposto a aceitar e viver sob os dogmas cristãos.
“De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito fremosa”.
“Nela até agora não pudemos saber que haja ouro nem prata porém a terra em si é d muitos bons ares assim frios e temperados como os de Entre-Doiro-e-Minho. Águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem, porém o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente e esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.

PADRE JOSÉ DE ANCHIETA
Nascido em Tenerife, no arquipélago das Canárias, em 1534, ingressou aos dezessete anos na companhia de Jesus. Aos vinte, vem ao Brasil, na missão jesuítica chefiada pelo Pe. Luís de Grã, que acompanhava o 2º Governador Geral, Duarte da Costa. Viveu aqui até morrer, aos sessenta e três anos, em Reritiba, hoje Anchieta, no Estado do Espírito Santo. Redige A Arte da Gramática da Língua Mais Usada do Brasil. Funda, em 25 de janeiro de 1554, o colégio de Piratininga, com Manuel da Nóbrega, embrião da cidade de São Paulo. Sua obra literária tem caráter utilitário, didático e moralizante. Suas poesias incluem composições em latim, castelhano, português, tupi e polilíngües. Em latim, destaca-se o poema elegíaco, de devoção
Mariana, segundo a lenda, composto nas areias de Iperoig transcrito, mais tarde, d memória, no papel – “De Beata Virgine Del Matre Maria”- ou “Poema da Virgem”. Também em latim menciona-se um poemeto heróico, destinado à exaltação dos feitos de Mem de Sá. Em espanhol, sua língua materna, realizou a maioria de seus poemas de natureza pessoal e confessional, sempre dentro do âmbito religioso.

“EM DEUS, MEU CRIADOR
Não há cousa seura.
Tudo quanto se vê
se vai passando.
A vida não tem dura.
O bem se vai gastando.
Toda criatura
passa voando.”
DA RESSURREIÇÃO

Ó Mãe sempre virgem, ó virgem fecunda,
De nossos prazeres cansamos, o Ave!
Com que quis fechar-se no nosso conclave
O Verbo, do Padre pessoa segunda.

De novo, Senhora, recebe vossa alma
Ó Ave sagrada de eterna harmonia!
Pois o que foi morto, com grande alegria,
A morte vencida, ressurge com palma.

As chagas cruentas das mãos delicadas
Vêm mais rubicundas que todas as rosas,
Para que por elas se tornem formosas
As almas que foram da culpa afeadas

O peito sagrado com lança rompido
Que para voss’alma foi bravo cutelo,
Com raios de glória ressurge tão belo
Que tem vossas dores de todo vencido.

Ó madre de vida, pois tendes tal dia,
Fazei-nos dar vida, que mortos jazemos,
E livres da morte, com Jesus tornemos
À vida da graça, com toda a alegria!
[in Tesouros da Juventude, volume 9]


TEATRO
Anchieta escreveu Autos, entre os quais: Na Festa de São Lourenço, Na Visitação de Santa Isabel, Na Vila de Vitória. Escritos em português, espanhol e tupi, os autos de Anchieta destinavam-se à edificação religiosa e moral do índio e do branco e eram encenados nas festas litúrgicas e cerimônias religiosas. Como os autos medievais(os mistérios e as moralidades (e aproximando do teatro de Gil Vicente, era encenações simples, envolvendo anjos, demônios, personificações do Bem, do Mal, do Vício e da Virtude, entremeados de rezas, cantos e danças.

PROSA
A escrita em prosa de Anchieta consta de Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões, que testemunham os sucessos e dificuldades do mestre e apóstolo, descrevem a natureza e o selvagem, historiam a colonização e a catequese, e atestam a formação humanística do autor.
BIBLIOGRAFIA: Apostila do Curso e Colégio Energia número 1, 1ª série do 2º grau, 1999.


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