Romantismo


Teve início na literatura inglesa e alemã, já na Segunda metade do século XVIII, estendendo-se depois, durante a primeira metade do século XIX, pelas demais literaturas européias e americanas.
O Romantismo é o resultado das transformações que já vinham ocorrendo desde o início do século XVIII em vários planos: político, social, ideológico e econômico.
No Brasil, em 1822, o movimento romântico coincidiu com a independência do Brasil, tendo desenvolvido sua originalidade de jovem pátria diante da Europa e de Portugal.
O marco inicial do Romantismo brasileiro foi a publicação de Suspiros Poéticos e Saudades (1836), de Gonçalves de Magalhães, que introduziu os principais temas da poesia romântica no Brasil.
Algumas características do romantismo brasileiro:
a) Negação dos moldes neoclássicos e arcádicos;
b) Abandono à solidão, ao sonho, ao devaneio, aos exageros da emoção e do sentimento;
c) Regionalismo e sertanismo;
d) Tendência patriótica e nacionalista
Destaques do Romantismo brasileiro na lírica: Gonçalves Dias, Gonçalves de Magalhães, Alvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Junqueira Freire, Castro Alves e Sousândrade. Na épica: Gonçalves Dias e Castro Alves. No romance: José de Alencar, Manuel Antonio de Almeida, Joaquim Manuel de Macedo, Bernardo Guimarães, Visconde de Taunay, Franklin Távora e outros. No conto: Alvares de Azevedo. No teatro: Martins Pena, José de Alencar, Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Alvares de Azevedo e outros.

POESIA – PRIMEIRA GERAÇÃO

AUTORES (1836-1840)
DOMINGOS JOSÉ GONÇALVES DE MAGALHÃES
(Rio, 1811-Roma 1882)
Formado em Medicina, publica seu primeiro livro, POESIAS, em 1832. No ano seguinte, em Paris, freqüenta o Curso de Filosofia e toma conhecimento do movimento romântico. Em 1836, juntamente com outros moços brasileiros(Araujo Porto Alegre, Torres Homem e Pereira da Silva) lança a Niterói, Revista Brasiliense. Nela, proclama a nova escola para a sua terra. No mesmo ano, publica Suspiros Poéticos e Saudades, em cujo prefácio está um verdadeiro manifesto em prol da nova estética. Gonçalves de Magalhães teve importância histórica na introdução da estética romântica e na batalha da reforma nacionalista da literatura brasileira.
Obras: Poesia: Suspiros poéticos e saudade(1836); A confederação dos tamoios (1856); Os mistérios(1858); Cânticos fúnebres(1864);Teatro: Antonio José ou O poeta e a inquisição(1838).

ANTÔNIO GONÇALVES DIAS (Caxias 1823 – Mar do Maranhão, 1864)
Filho de um comerciante português e de uma mestiça brasileira, iniciou mas não concluiu o curso de Direito em Coimbra. De volta ao Brasil em 1854, lecionou Latim e História no Colégio Pedro II. Participou de várias missões de estudo no Brasil e na Europa. Dominava a língua portuguesa em todos os seus aspectos e soube até escrever o belo poema Sextilhas de frei Antão(1848), em português arcaico e medieval. Amava Ana Amélia Ferreira do Vale, com quem pretendia casar-se. Foi impedido por ser mestiço. Com a preocupação romântica de retorno ao passado, valorizou nossa indígena e sobre ele deixou-nos os seus melhores poemas tais como I-Juca Pirama; Marabá, Canção do Tamoio, O canto do piaga, Leito de folhas verdes, Os timbiras (inacabado). Gonçalves Dias é uma das vozes mais altas do Romantismo e o primeiro grande poeta nacional. Sua inspiração se volta para a natureza brasileira e seus primitivos habitantes, criando ao lado de José de Alencar, no romance, o “indianismo”, tão característico da independência literária do Brasil. Os timbiras, I-Juca-Pirama, O Canto da Piaga, Marabá, pertencem a esse gênero.
Obras:
Poesia: Primeiros cantos (1846); Segundos Cantos (1848); Sextilhas do frei Antão(1848); Últimos Cantos(1851); Os Timbiras(1857). Teatro: Beatriz Cenci(1843); Leonor de Mendonça(1847); Boabdil(1860). Outros gêneros: Memórias de Agapito Goiaba(1841); Dicionário da língua tupi(1858).
Seus versos indianistas desenham um índio portador de sentimentos e atitudes artificiais, extremamente europeizado; valem, contudo, pela carga lírica e pela perfeita utilização dos vários recursos de métrica, musicalidade e ritmo, como bem atestam os versos de “I-Juca Pirama”.

CANÇÃO DO TAMOIO

Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida;
Viver é lutar.
A vida é combate
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos,
Só pode exaltar.

Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma prêsa
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.
(...)
Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D’imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d’ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.
(...)
[In Tesouro da Juventude, volume 2]

I-JUCA PIRAMA (trecho)

I
No meio das tabas de amenos verdores,
Cercados de troncos – cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos d’altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão.

São rudos, severos, sedentos de glória
Já prélios incitam, já cantam vitória,
Já meigos atendem à voz do cantos:
São todos Timbiras, guerreiros valentes!
Seu nome lá voa na boca das gentes,
Condão de prodígios, de glória e terror!
(...)

SEGUNDA GERAÇÃO – BYRONIANA
“MAL-DO-SÉCULO” - ULTRA-ROMANTISMO
Procurando copiar o estilo de vida dos escritores românticos europeus Byron e Musset, essa geração caracterizava-se pelo espírito do “mal do século”; isto é, por uma onda de pessimismo doentio diante do mundo, que se traduzia no apego a certos valores decadentes, tais como a bebida, o vício, e na atração pela noite e pela morte. O principal poeta do grupo é Álvares de Azevedo e além da atração pela noite e pela morte, seus traços são acrescidos de temas macabros e satânicos.
AUTORES
MANUEL ANTÔNIO ÁLVARES DE AZEVEDO (São Paulo, 1831 – São Paulo, 1852)
Em 1848, matricula-se na Faculdade de Direito e inicia um período de intensa produção literária, ao mesmo tempo em que se manifestam os primeiros sintomas de tuberculose. A partir de então, revela verdadeira fixação pela idéia da morte, deixando-a clara em várias cartas à mãe, à irmã (suas confidentes) e aos amigos.
Álvares de Azevedo é o maior nesse grupo de poetas. Lira dos Vinte Anos nos revela um jovem triste que sonha com um amor que tarda em se realizar. Além disso, nem tem esperança que chegue a acontecer, pois o poeta pressente que morrerá cedo. Esse sentimento está gritante em Lembrança dos Quinze Anos e no soneto Perdoa-me, Visão dos Meus Amores. Um lado menos pessimista e não menos lírico de sua obra são os versos que revelam seu profundo apego à família. Está bem claro em À Minha Mãe e no soneto Oh! Páginas da Vida que eu Amava. Poema do Frade, precedido de longo tratado sobre o belo e a poesia, é sua coletânea de pequenas e grandes obras-primas. Fez ainda Macário para o teatro, e em prosa escreveu o livro de contos Noites na Taverna.
Obra:
Lira dos Vinte Anos – poesia; O Poema do Frade e Conde Lopo – poemas narrativos cuja tônica é o satanismo. Macário – oscila entre teatro e diário e a narrativa. A Noite na Taverna – contos fantásticos, macabros.

À MINHA MÃE

És tu, alma divina, essa Madona
Que nos embala na manhã da vida,
Que ao amor indolente se abandona
E beija uma criança adormecida;

No leito solitário és tu quem vela,
Trêmulo o coração que a dor anseia,
Nos ais do sofrimento inda mais bela
Pranteando sobre uma alma que pranteia;

E se pálida sonhas na ventura
O afeto virginal, da glória o brilho,
Dos sonhos no luar, a mente pura
Só delira ambições pelo teu filho!

Pensa em mim, como eu em ti saudoso penso,
Quando o luar no mar se vai doirando;
Pensamento de mãe é como incenso
Que os anjos do Senhor beijam passando.
(...)
[1831-1852], in Tesouro da Juventude, vol. 10.

CASIMIRO JOSÉ MARQUES DE ABREU (Barra de São João RJ, 1839 – Nova Friburgo RJ,1860)
Filho de português e mãe brasileira,iniciou os seus estudos em Friburgo. Em 1853 seguiu para Lisboa, onde viveu um longo “exílio” de quatro anos. Sua carreira literária iniciou-se oficialmente em 1856, quando encenou no teatro D. Fernando(em Lisboa) a peça Camões e o Jaú. Retornou ao Brasil, publicou seu único livro de poesias - Primaveras (1859) - e morreu tuberculoso aos 21 anos.
Dois temas marcam a sua obra: o saudosismo e o lirismo amoroso. Em sua poesia lírico-amorosa encontramos a imagem feminina meiga e idealizada e a oscilação entre a sentimentalidade e os impulsos eróticos, o que o conduz a uma malícia mascarada, fruto do temor de transgredir os limites da moralidade do seu tempo e da necessidade de descrever sentimentos e situações adolescentes, mais imaginativas que reais.
A saudade, em Casimiro de Abreu, não é apenas da pátria; a família, o lar, a infância perdida são realidades pessoais de cujas ausências p poeta se lamenta.

CANÇÃO DO EXÍLIO

Eu nasci além dos mares:
Os meus lares,
Meus amores ficam lá!
- Onde canta nos retiros
Seus suspiros,
Suspiros o sabiá!

Oh! que céu, que terra aquela,
Rica e bela
Como o céu de claro anil!
Que seiva, que luz, que Galas,
Não exalas,
Não exalas, meu Brasil!

Oh! que saudades tamanhas
Das montanhas
Daqueles campos natais!
Daquele céu de safira
Que se mira,
Que se mira nos cristais!

Não amo a terra do exílio,
Sou bom filho,
Quero a pátria, o meu país,
Quero a terra das mangueiras
E as palmeiras,
E as palmeiras tão gentis!
(...)
[in Tesouros da Juventude, volume 15]

LUIS JOSÉ JUNQUEIRA FREIRE (Salvador, 1832 – Salvador,1855)
Junqueira Freire foi aluno do Liceu Provincial de Salvador. Aos dezenove anos, em conseqüência de crise moral e questões familiares, ingressou na Ordem dos Beneditinos. A falta de vocação o fez deixar a Ordem em 1854. Morreu do coração aos 23 anos.
Obras:
Inspiração do claustro(1855); Contradições poéticas(póstumas, s.d.); Elementos de retórica literária(1852).
Além do individualismo e da angústia presentes em sua poesia, fruto de uma vida amarga e cheia de sofrimentos, é marcante em seus versos a oposição entre o sentimento religioso e o erotismo frustrado.

LUÍS NICOLAU FAGUNDES VARELA (Rio Claro RJ, 1841 – Niterói RJ, 1875)
Uma poesia de transição.
Fagundes Varela passou a infância em ambiente rural e, em 1859, foi para São Paulo a fim de completar os estudos preparatórios de Direito.
A vida boêmia atrasa-lhe os estudos e só consegue matricular-se na faculdade em 1862. No mesmo ano casou-se com uma artista de circo, a qual lhe deu um filho que só viveu três meses.
A morte do filho, a doença da mulher, a instabilidade emocional e as dificuldades financeiras arrastaram-no definitivamente à boemia e ao álcool. De volta à Niterói, sem ter concluído o curso de Direito, continua a levar vida desregrada até ser vitimado por um repentino mal no cérebro.
Obras:
Noturnas(1831; O estandarte auriverde(1836); Vozes de América(1864); Cantos e fantasias(1865), Cantos meridionais(1869); Cantos do ermo e da cidade(1869); Anchieta ou O Evangelho nas selvas(1875); Cantos religiosos(1878) e Diário do Lázaro(1880).
Embora incluído na 2ª Geração Romântica, Varela cultivou temas de todas as gerações: reviveu a tradição pessimista e mórbida do byronismo e refugiou-se na natureza, em decorrência do conflito entre a sua formação rural e a vida boêmia e citadina. Ao lirismo subjetivo devotado à mulher, somam-se em sua obra poemas que conferem importância política, mostrando-se contrário à Igreja, ao trono, à escravidão e favorável à liberdade, à fraternidade universal e ao progresso (temas que serão mais bem explorados por Castro Alves). Por vezes, sua poesia religiosa de inspiração bíblica, atinge a contemplação mística.
Seu poema mais famoso é o que dedicou ao filho “À Memória de Meu Filho Morto a 11 de Dezembro de 1863”.

A FLOR DO MARACUJÁ (fragmento)

Fagundes Varela (1841-1875)
Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do sabiá
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá!

Pelo jasmim, pelo goivo, (1)
Pelo agreste manacá
Pelas gotas do sereno
Nas folhas do gravatá(2),
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá!

Pelas tranças da mãe-dágua
Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá,
Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá!
(...)

1- goivo- fruto do goiveiro: nome comum a várias plantas perenes, herbácias e originárias do Velho Mundo.
2 – nome comum a várias plantas da família das Bromeliáceas, que dão frutos ácidos em cachos; caraguatá.

TERCEIRA GERAÇÃO – SOCIAL OU CONDOREIRA
Depois de 1860, com o Brasil vivendo os dramas da campanha abolicionista e da Guerra do Paraguai, o Romantismo acrescentará novas características às anteriores. Apresentará e criticará as grandes questões sociais da época (como a luta pela abolição da escravatura, por exemplo). O representante máximo desta corrente de participação social será Castro Alves.
O condoreirismo, associa-se o condor ou a outras aves, como a águia, o falcão e o albatroz, que foram tomadas como símbolo dessa geração de poetas com preocupações sociais. Identificando-se com o condor – ave de vôo alto e solitário, com capacidade de enxergar à grande distância.

ANTÔNIO DE CASTRO ALVES (Bahia, 1847-1871)
Enquanto romântico, se compara apenas a Gonçalves Dias. Grande lírico, não foi menor como cantor da grande questão social na época: abolicionista. Seu lirismo já não sofre de todo o individualismo que caracterizou o surgimento do Romantismo e dos ultra-românticos. Mostra-se preocupado com o mundo exterior, com o povo, com sua terra. E. ao falar desses temas, não deixa de ser extremamente lírico. Seu amor, porém, já não é idealizado como o dos poetas anteriores. Tem forte carga sensual, antecipando a estética realista.
Para um poeta que morreu aos 24 anos, deixou-nos uma produção volumosa, esteticamente madura, com um estilo rico em figuras que empolgam o leitor. Vozes d’África e O Navio Negreiro são seus mais divulgados poemas abolicionistas, ambos em sua obra Os Escravos, dentro da qual alguns críticos colocam 33 poemas publicados depois da morte do poeta. Neles é patente a veia romântica de endeusamento da natureza. É nesta poesia que ele se mostra realmente condoreiro. Espumas Flutuantes e Hinos do Equador são coletâneas nascidas de amores vividos e não apenas sonhados: Idalina e Eugênia Câmara.

Engajado nas lutas do momento, incluindo o fim do Império, muitas vezes declamou seus próprios poemas em teatros e praças públicas, empolgando platéias de Recife, Salvador, São Paulo e Rio. Aí conheceu Alencar e Machado, a quem apresentou sua pela Gonzaga ou A Revolução de Minas. A ela se referiu Machado elogiosamente no Correio Mercantil.
Complementando: Teve uma existência, embora curta, bastante agitada, quer na sua terra natal, quer Recife ou em São Paulo, aonde foi estudar Direito. Seu nome foi aureolado em vida de entusiástica popularidade e os seus versos, de vibrante inspiração e por isso chamados “condoreiros”, ora traduziam um coração apaixonado, ora revelavam a indignação e a rebeldia abolicionista, em face da triste situação dos escravos que dele fizeram o maior poeta social do Brasil.
[in Tesouro da Juventude, volume 7]

VOZES D’ÁFRICA

Deus! Ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus? ...

Qual Prometeu, tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia,
Infinito galé!...
Por abutre – me deste o sol candente,
E a terra de Suez – foi a corrente
Que me ligaste ao pé...
(...)
[in Tesouros da Juventude, volume 17]

O LIVRO E A AMÉRICA
(narrativa – exaltação)

(...)
Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O s séc’lo que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou....

Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto –
As almas buscam beber...
Oh! bendito o que semeia
Livros... livros à mão-cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É gérmen – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar.
(...)
[in Tesouros da Juventude, volume 15]

ÚLTIMO FANTASMA

Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso,
Que te elevas da noite na orvalhada?
Tens a face nas sombras mergulhada...
Sobre as névoas te libras vaporoso...

Baixas do céu num vôo harmonioso!...
Quem és tu, bela e branca desposada?
Da laranjeira em flor a flor nevada
Cerca-te a fonte, ó ser misterioso!...

Onde nos vimos nós?... És doutra esfera?
És o ser que eu busquei do sul ao norte...
Por quem meu peito em sonhos desespera?...

Quem és tu? Quem és tu? – És minha sorte!
És talvez o ideal que est’alma espera!
És a glória talvez! Talvez a morte!...
[in Tesouros, volume 16]

JOAQUIM DE SOUSA ANDRADE GUIMARÃES (Sousândrade) – Guimarães MA,1833 – São Luís MA, 1902
Formou-se em Letras pela Sorbonne, onde estudou também Engenharia de Minas. Percorreu vários países da Europa e da América Latina. Em 1871 fixou residência nos Estados Unidos, onde secretariou o periódico O Novo Mundo, publicado em português, em Nova Iorque. Lá imprimiu o 1º volume de suas Obras Poéticas (1874). Regressou ao Maranhão em 1889, participou da política republicana, presidiu a comissão do projeto de constituição maranhense, idealizou a bandeira do seu Estado e ensinou grego no Liceu Maranhense. Terminou sua vida pobre e solitário.
Obras:
Harpas Selvagens(1857); Guesa Errante(1866); Novo Éden(1893).
O Guesa (cujo nome significa errante, sem lar) é a sua obra mais significativa. Na mitologia colombiana, Guesa é um jovem destinado a ter o coração arrancado em sacrifício ao deus Sol, depois de peregrinar dos dez aos quinze anos. No longo poema inacabado de treze cantos, o poeta descreve as suas viagens, fazendo reflexões predominantemente sociais. Toma partido dos povos indígenas contra a corrupção e opressão colonialista, preconiza o modelo republicano associado ao sistema comunitário dos Incas e critica a sociedade capitalista.

A PROSA ROMÂNTICA
O primeiro romance brasileiro foi A filha do Pescador(1843), de Teixeira e Sousa. Foi com Joaquim Manoel de Macedo, entretanto, que surgiu o verdadeiro romance brasileiro. A Moreninha garantiu-lhe o pioneirismo de fato nesse gênero literário. Sua obra fixou os costumes da sociedade carioca daquele tempo, atendendo à
Expectativa do leitor burguês, que lia com prazer as histórias que transcorriam nos cenários que lhe eram conhecidos e nos quais se via retratado como personagem.

O ROMANCE BRASILEIRO E A IDENTIDADE NACIONAL
Com a Independência do Brasil em 1822, nossos artistas e intelectuais emprenharam-se em definir uma identidade cultural do País. Afinal, o que era ser brasileiro naquele momento? Qual a nossa língua, nossa raça, nosso passado histórico, nossas tradições, etc?
O romance, muito mais do que se a poesia, procurou dar respostas imediatas a essas perguntas, assumindo o papel de principal instrumento de construção da cultura brasileira. Assim, procurando “re-descobrir” o País, o romance brasileiro está radicalmente ligado ao reconhecimento dos espaços nacionais, tomados em três frentes: a selva, o campo e a cidade, que darão origem, respectivamente, ao romance indianista e histórico (a vida primitiva), ao romance regional (a vida rural) e ao romance urbano(a vida cotidiana). José de Alencar, por exemplo, o maior romancista de nosso Romantismo, escreveu obras ligadas a esses três espaços, como O Guarani: romance histórico-indianista; O Gaúcho: romance regional; e Senhora: romance urbano.

O ROMANCE URBANO
JOAQUIM MANOEL DE MACEDO (Itaboraú, RJ, 1820 – Rio de Janeiro,1882)

Formou-se em Medicina, mas não exerceu a profissão. No mesmo ano da sua formatura, publicou A Moreninha (1844), que lhe valeu um êxito invulgar. Dedicou-se ao jornalismo, à política e ao magistério. Foi professor de História e Geografia no Colégio Pedro II e sócio fundador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Apesar da popularidade das suas obras, morreu pobre e esquecido.
Obras: Romance: A Moreninha (1844); O Moço Loiro (1845); Dois Amores (1848); A Luneta Mágica (1869). Teatro: O Cego (1849); O Fantasma Branco (1856); O Primo da Califórnia (1858).
Macedo adaptou o romance romântico europeu ao brasileiro, repisando sempre as mesmas fórmulas com histórias singelas, sentimentais no ambiente natural e social do Rio de Janeiro. Suas narrativas têm sempre um final feliz depois de muitos obstáculos porque passam os personagens.

MANUEL ANTÔNIO DE ALMEIDA (Rio de Janeiro, 1831-1861)
Estudante de Medicina, publicou as Memórias de um Sargento de Milícias em folhetim, no suplemento Pacotilha do Jornal Correio Mercantil, ao longo de 1852-53.
Em 1857 foi nomeado diretor da Tipografia Nacional; em sua passagem por esse órgão, destacou-se em episódio pitoresco: Manuel Antônio de Almeida empregou e orientou um pobre menino mestiço... chamado Machado de Assis. Morreu em 1861, em plena campanha política, no naufrágio de um vapor no litoral norte do Rio de Janeiro.
Obras: Memórias de um Sargento de Milícias(em folhetim), com o pseudônimo de “Um brasileiro”, e posteriormente em 2 volumes (1854 e 1855), com o nome do autor.

O ROMANCE ALENCARIANO
JOSÉ MARTINIANO DE ALENCAR (Ceará, 1829 – Rio de Janeiro,1877)

José de Alencar, ainda menino, transferiu-se para o Rio de Janeiro com a família. Filho de um senador do Império, assistiu em sua casas às reuniões que tramavam a maioridade de Pedro II. Em 1859 ingressou na vida política atuando pelo Partido Conservador; foi deputado por várias legislaturas e Ministro da Justiça de Pedro II. Tuberculoso, morreu em 1877, no Rio de Janeiro.
OBRAS: Romance Urbano: Cinco Minutos (1856); A Viuvinha (1860); Lucíola (1862); Diva (1864); A Pata da Gazela (1870); Sonhos D’Ouro(1872); Senhora(1875); Encarnação(1893). Romance Regionalista: O Gaúcho (1870); O Tronco do Ipê (1871); Til (1872); O Sertanejo(1875). Romance Indianista: O Guarani (1875); Iracema (1865); Ubirajara (1874). Romance Histórico: As Minas de Prata(1865); A Guerra dos Macacos(1873). Teatro: Demônio Familiar(1857); Verso e Reverso(1857); As Asas de um Anjo(1860); Mãe(1862); O Jesuíta(1875). Poesia: Os filhos de Tupã(inacabado). Não-ficção: Carta sobre a “Confederação dos Tamoios”(1856); Cartas de Erasmo(Ao Imperador)(1865); O sistema Representativo(1866); O Juízo de Deus, a Visão de Jó(1867); Ao Correr da Pena(1874); Como e Porque Sou Romancista(1893).

O ROMANCE REGIONALISTA
BERNARDO JOAQUIM DA SILVA GUIMARÃES (Ouro Preto, MG, 1825-1884)

Estudou Direito em São Paulo, onde se uniu ao grupo boêmio da faculdade. Foi juiz de direito e professor secundário em Ouro Preto e Queluz. Além de romancista, notabilizou-se como humorista. É considerado um dos criadores do romance sertanejo e regional, dedicando-se especialmente a Minas Gerais e Goiás. OBRA: Romance: O Ermitão de Múquém(1865); O Seminarista(1877); A Escrava Isaura(1875). O drama da escravidão, de fazendeiros, de amores impossíveis, é retratado em suas obras.

ALFREDO D’ESCRAGNOLLE TAUNAY (Rio,1843-1899)
Estudou no Colégio Pedro II e ingressou na Escola Militar, bacharelando-se em Ciências Físicas e Matemáticas. Participou da Guerra do Paraguai. Foi deputado, senador e presidente de províncias: Santa Catarina e Paraná.
OBRAS: A Mocidade de Trajano(1871); Inocência(1872); O Encilhamento(1894); A Retirada da Laguna(1871-escrito em francês). Escreveu ainda contos, depoimentos, ensaios e peças teatrais.
Romântico pelo idealismo sentimental e realista pelas descrições da natureza, às vezes com observações minuciosas e notas científicas sobre a flora e a fauna, Taunay é um escritor de transição, que se tornou famoso graças a duas obras: Inocência e A Retirada da Laguna. Esta última sobre o episódio ocorrido na Guerra do Paraguai.

FRANKLIN TÁVORA (Baturité, CE, 1842 – Rio, 1888)

Bacharelou-se em Direito pela Faculdade do Recife. Foi deputado, jornalista e advogado. Mudou-se para o Rio, em 1874, onde foi funcionário da Secretaria do Império.
OBRAS: Romance: O Cabeleira(1876); O Matuto; O Sacrifício; Lourenço; A Casa de Palha; Os Índios do Jaguaribe. Novela: Um Casamento no Arrabalde. Teatro: Um Mistério de Família; Três Lágrimas. Contos: A Trindade Maldita. Crítica: Cartas a Cincinato.
O mais radical e coerente dos regionalistas, desejando que a literatura de sua região se diferenciasse das outras sobre uma base de realidade local vivida e observada, nutrida pelo senso da História, da Geografia, dos problemas humanos. Isto o levou a uma atitude documentária, que teve como conseqüência a interpretação do passado por meio do romance histórico e o senso do real na visão do presente.

O TEATRO ROMÂNTICO
Um campo privilegiado para fazer cumprir o programa nacionalizante do Romantismo foi, indiscutivelmente, o teatro. Dois anos após Suspiros Poéticos e Saudades, Gonçalves de Magalhães torna-se uma vez mais pioneiro ao fazer representar seu drama Antônio José ou O Poeta e a Inquisição, no Constitucional Fluminense, na noite de 13 de março de 1838, pela companhia de João Caetano. No prefácio ressalta o papel histórico da estréia: Lembrarei somente que esta é, se não me engano, a primeira tragédia escrita por um brasileiro, e única de assunto nacional. O assunto gira em torno do poeta Antônio José, queimado pela Inquisição em auto-de-fé, sob a acusação de judaísmo.
Ainda nesse ano de 1838, a 4 de outubro, a mesma Companhia de João Caetano leva ao palco O Juiz de Paz na Roça, de Martins Pena, o fundador da comédia de costumes no Brasil.
Destaque-se a atuação de João Caetano(1808-1863), que muito contribuiu para a implantação das artes cênicas no Brasil. Criou um elenco com atores nacionais, orientando-os no sentido de se desenvolver dicção e representação brasileiras, livres dos modismos lusitanos. Sua companhia representava nos palcos das principais cidades do País e também obteve muito sucesso em Lisboa.

MARTINS PENA
Luís Carlos Martins Pena nasceu no Rio de Janeiro, em 1815, e morreu em Lisboa, em 1848. Estudou comércio e exerceu inicialmente o cargo de amanuense da Mesa do Consulado da Corte, depois, da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros, até que foi nomeado, em 1847, adido de primeira classe à legação brasileira em Londres, para onde embarcou no ano seguinte. Doente, não chegou a retornar ao Brasil, falecendo no percurso, em Lisboa, aos 33 anos de idade, legando-nos vinte comédias e seis dramas. Suas comédias são sátiras alegres contra convenções sociais obsoletas.
PRINCIPAIS PEÇAS – TEATRO: O Juiz de Paz na Roça(1838); O judas em Sábado de aleluia(1844); O Irmão das Almas(1844); Os dois ou O Inglês Maquinista(1845); O noviço(1845); Quem casa quer casa(1845); Os três médicos(1845); Os namorados(1845); A Barriga de Meu Tio(1846).


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