Simbolismo

 

Alceu Amoroso Lima inclui o Simbolismo na fase moderna da literatura brasileira, assim subdividida: Simbolismo(de 1890 a 1900), Pré-Modernismo(de 1900 a 1920), Modernimos(de 1920 a 1945) e Neo-Modernismo(de 1945 aos dias atuais).
O Simbolismo, opondo-se ao Parnasianismo, com a obra de três grandes poetas franceses, Rimbaud, Verlaine e Mallarmé, encontraria no Brasil notabilíssimos representantes, com dois poetas excepcionais: Cruz e Sousa(1861-1898) e Alphonsus de Guimarães(1870-1921). A esses dois mestres cumpre associar toda a vasta plêiade de poetas que Andrade Muricy reuniu no seu Panorama do Simbolismo Brasileiro. Dessa plêiade destacaremos o poeta baiano Pethion de Villar(Egas Moniz Barreto de Aragão, 1870-1924) e o maranhense Maranhão Sobrinho(1879-1925).
Cruz e Sousa, autor de Broquéis, Faróis, Último Soneto(em verso, e Missal e Evocações, em prosa), é o mais destacado representante da raça negra na poesia brasileira.. A forma em que ele se exprimiu, com prodigioso poder de comunicação literária, é criação de seu gênio poético, que soube estabelecer novas associações vocabulares na elaboração do poema em língua portuguesa.
A obra de Alphonsus de Guimarães é constituída de Setenário das Dores de Nossa Senhora, Dona Mística, Kyriale, Pauvre Lyre, além de um volume em prosa, Mendigos, e de outro livro de poemas, de publicação póstuma, Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte. Nos recursos plásticos e musicais do Simbolismo, encontrou Alphonsus de Guimarães a perfeita adequação ao seu gênio poético, numa língua harmoniosamente pura, de extraordinária força sugestiva. Poeta elegíaco, de inspiração mística, o mestre de Kyriale transcende os limites de uma literatura, para ser um dos mais altos cantores líricos de língua portuguesa.
O simbolismo, que teve o seu núcleo no Paraná, com Dario Veloso(1869-1937) e Silveira Neto(1872-1942), e em Minas Gerais, com José Severiano de Resende(1871-1931) e Edgar da Mata Machado(1878-1907), também teve o seu núcleo na Bahia, com Pedro Kilkerry(1885-1917), o já citado Pethion de Villar e Afrânio Peixoto(1878-1947). No Rio de Janeiro atuaram, principalmente, Guerras Duval(1872-1947) e Mário Pederneiras(1868-1915). Ao núcleo do Paraná deve ser acrescido o nome de Emiliano Perneta(1866-1921). No Rio Grande do Sul, um poeta se destaca: Marcelo Gama(1878-1915). Outro grande nome, este do Piauí: Da Costa e Silva(1885-1950).
O Simbolismo não se limitou a atuar na modificação do verso e da estrutura visual do poema: influiu na prosa, com as Canções sem Metro, de Raul Pompéia, influiu na ficção, com a obra de Virgílio Várzea(1862-1941), de Gonzaga Duque(1863-1911) e de Rocha Pombo(1857-1933), além da de Graça Aranha, com o romance Canaã.
É também extremamente importante a contribuição do Simbolismo à poesia de Augusto dos Anjos(1884-1914), o estranho poeta do Eu, livro singular na poesia brasileira e que deu viabilidade genial à poesia científico-filosófica, com imediata ressonância popular.

CRUZ E SOUSA
Nasceu em Desterro, atual Florianópolis, SC, em 1861 e faleceu em Sitio, MG, em 1898. Seus pais, escravos libertos pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa, tutelou o poeta até a adolescência. Recebeu apreciável instrução secundária na cidade natal, mas, com a morte do protetor, teve que deixar os estudos; milita na imprensa catarinense, escrevendo crônicas abolicionistas e percorre o país como ponto de uma companhia teatral. Os versos que escreve nos anos 80 ressentem-se de leituras várias que vão dos Condoreiros e da poesia libertária de Guerra Junqueiro aos parnasianos. Em 1885, em parceria com Virgílio Várzea, escreve as prosas de Tropos e Fantasias, onde se alternam páginas sentimentais e anátemas contra os escravistas.
Todo o período catarinense de Cruz e Sousa foi, aliás, marcado pelo combate ao preconceito racial, de que fora vítima em mais de uma ocasião, e que o impediu de assumir o cargo de promotor em Laguna, para o qual fora nomeado. Mudando-se para o Rio de Janeiro, em 1890, colaborou na Folha Popular, aí formando com Bernardino Lopes e Oscar Rosas o primeiro grupo simbolista brasileiro. Obtido um emprego mísero na Estrada de Ferro Central, casa-se com Gavita, cuja saúde mental logo se revelou frágil. Minado pela tuberculose, Cruz e Sousa retira-se, em 1897, para a pequena estação mineira de Sítio à procura de melhor clima. Aí falece, no ano seguinte, aos 36 anos de idade.
OBRA: Tropos e Fantasias(em parceria com Virgilio Várzea); Missal (poemas em prosa); Broquéis (poemas); Evocações(poemas em prosa); Faróis(poesias); Últimos sonetos(poesias recolhidas por Nestor Vitor, amigo e admirador do poeta e publicada em 1905).

VIDA OBSCURA

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
\tornando-se mais simples e mais puro

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
Magoado, o culto e aterrador, secreto.
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu, que sempre te segui os passos,
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!
[in: Os livros da ACAFE, cit]


DE ALMA EM ALMA

Tu andas de alma em alma errando, errando,
Como de santuário em santuário.
És o secreto e místico templário
As almas, em silêncio, contemplando

Não sei que de harpas há em ti vibrando,
Que sons de peregrino estradivário,
Que lembras reverências de sacrário
E de vozes celestes murmurando.

Mas sei que de alma em alma andas perdido,
Atrás de um belo mundo indefinido
De silêncio, de Amor, de Maravilha

Vai! Sonhador das nobres reverências!
A alma da Fé tem dessas florescências,
Mesmo da Morte, ressuscita e brilha!


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