A Revolução Estético-Literário



Se a Proclamação da República, em Santa Catarina, alijou do Poder uma Aristocracia Urbana – disputada por conservadores e liberais que acompanhavam as danças e as contradanças de seus chefes na Corte; se O Conservador e o Regeneração, ainda em 1889, tiveram que ceder lugar ao República, o neutro Jornal do Comércio se agüentaria até 1894. Nossas belas letras não foram afetadas pelo novo sistema de governo.
Em 29 de agosto de 1883, toma posse como Presidente da Província Luiz da Gama Rosa. Vindo da Corte, rodeia-se de um grupo de jovens que seguiam a escola do Romantismo: Luis Delfino e Lacerda Coutinho. O Presidente alarma-se, pois os nossos escritores pouco ou, mesmo, quase nada sabem de Darwin, Zola, Comte, Spencer e Proudhon, embora esses ilustres intelectuais estivessem revolucionando a Arte e o Pensamento nos centros da Cultura européia.
Gama Rosa traz para Santa Catarina, melhor para o Desterro, informações sobre aqueles sábios com suas respectivas doutrinas.
Não tardou muito para que os jovens Virgilio Várzea, Santos Lostada e Araújo figueiredo deixassem de lado o romantismo e empunhassem a nova Bandeira. Mas o que eles aprendiam nos serões literários de Gama Rosa era pouco, difuso e atrapalhado. Embaralhavam doutrinas, misturavam nomes, confundiam Naturalismo com Parnasianismo. Numa noite elogiavam o Positivismo e na outra criticavam Comte!.
Contudo, esse pouco entendimento do que seria, realmente, a Idéia Nova, foi suficiente para empolgá-los incutindo-lhes o desejo de uma renovação radical.
Esses novos pontos de vista passaram a ser propalados pelos botequins e pelas conversas de rua. A Idéia Nova tomava vulto, suscitava controvérsias e adquiria adeptos.
Como faltasse um definido programa de ação, para dar foros de cidadania ao movimento, Virgílio Várzea tenta suprir essa deficiência e, através do Regeneração, de 10 de janeiro de 1884, redige o soneto-manifesto “alerta”, em que inventara, entre outras coisas, alexandrinos de treze pés... E incluía Comte no rol dos reacionários.

ALERTA
Alerta, meu amigo! – E vamos batalhar
À luz da Idéia Nova: À linha da vanguarda!
O forte alexandrino façamos rebrilhar,
Valentes derrubemos a douda e Velha Guarda.

Alerta! que já oiço o toque do clarim,
Alegre, tão vermelho como é uma alvorada!
E tenho minhas armas mais brancas que o marfim
E o pulso inda mais rijo que a folha d’uma espada.

Batamos fortemente o velho romantismo,
Que o séc’lo é puramente de evolucionismo
De Harttman, de Spencer, Zola e Letourneau,

Batamos rijamente os tontos pessimistas,
Que o séc’lo é de Gigantes, d’assombro e conquistas
E não de Augusto Comte, de Dumas ou Hugo.
(Virgilio Várzea)

Diante deste soneto, a literatura Romântica começou a inquietar-se: não era mais possível mostrar indiferença e pouco caso.
Os conservadores procuraram organizar a reação e escolheram Pinheiro Chagas como seu porta-voz. A 5 de março de 1884 inicia o Jornal do Comércio a publicação das “Fantasias sobre o estilo”. Nelas, chagas chama os nossos escritores de “escritorezinhos sem alma, trapeiros do pensamento, cujo estilo, benevolamente comparado, dá a impressão de uma viagem de coche por estradas mal cuidadas.”
Estava lançado o desafio.
A Idéia Nova tivera o seu Manifesto. Ia Ter agora a sua Polêmica, que veio no Regeneração de 8 de março. O título do artigo “Pinheiro Chagas”, dizia: “Esse escritor que preponderou em outros tempos, é um crítico atrasadíssimo, desconhecendo os processos modernos, e um chapista afrontoso.” Quem assina o artigo? O próprio presidente da Província, com dois asteriscos.
E os debates pela imprensa prosseguiram, mas não conseguiram explicar que tido de doutrina era essa. E, como não podiam explicar, atacavam os inimigos. O povo ficava a absorver os debates pelos jornais.
Um pouco mais tarde Virgilio Várzea publica Traços Azuis, coletânea de seus melhores poemas. E, entre eles, lá estará o célebre manifesto “alerta”. Gama Rosa voltará à Corte em setembro de 1884. No ano seguinte, Tropos e Fantasias trazem a assinatura de Cruz e Sousa e Virgilio Várzea.
Apesar da resistência das duras cabeças românticas da Capital, a Idéia Nova começava a produzir seus primeiros frutos, modificando nosso acanhado ambiente intelectual.
As disputas foram esmorecendo. Eduardo Nunes Pires, paladino dos “velhos” já não era mais citado, Santos Lostada, Horácio de Carvalho, Virgilio Várzea e Araujo Figueiredo ficaram na Província. Cruz e Sousa foi para o Rio e retorna a Desterro em 1885 para publicar Tropos e Fantasias.


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