Arcadismo


CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

Denomina-se Arcadismo a última manifestação da Era Clássica que se estende elo século XVIII e início do século XIX. A Arcádia era uma região do Peloponeso na Grécia Antiga, habitada pelos árcades, região esta evocada pelos poetas renascentistas. Como um lugar de inocência e de felicidade bucólica. O período é designado também por Neoclassicismo porque os poetas voltam-se para a simplicidade e o equilíbrio dos autores do Renascimento. As propostas de renovação surgem da França e da Itália. Em 1960 é criada em Roma a Arcádia Romana cujo lema era “extirpar o mau gosto onde quer que se aninhasse”. Diretriz de franca oposição ao verbalismo exagerado do Seiscentismo.
Após a Revolução Francesa de 1789, que enorme repercussão teve nos países da Europa e da América, a burguesia assume o poder constituído, fato que se consolida com a Revolução Industrial iniciada na Inglaterra.
O século XVIII é o Século das Luzes. Os filósofos iluministas como Voltaire, Diderot, D’Alembert rejeitam as soluções teológicas e metafísicas e questionam as formas de organização da sociedade. O espírito filosófico predominantemente na época confere fé no progresso e confiança na razão humana. Os enciclopedistas pretendiam colocar ao alcance do grande público, num imenso esforço de vulgarização, todos os ramos do conhecimento.
Em 1759, por decreto do marquês de Pombal, os jesuítas são expulsos de Portugal e, no ano seguinte, do Brasil. Em conseqüência, o ensino, antes sob a direção da Companhia de Jesus, torna-se aberto às reformas progressistas.
Os árcades opõem-se às antíteses, aos hipérbatos (inversões sintáticas) e aos trocadilhos do Barroquismo decadente. A nova estética busca a simplicidade formal e a ordem direta.
Os poetas da Arcádia orientam-se pelo ideal da doce vida campesina, longe da agitação dos centros urbanos e como orientação filosófica seguem o estoicismo. Adotavam pseudônimos pastoris gregos ou latinos, convivendo na mitológica região da Arcádia entre ninfas e rebanhos numa paisagem idealizada.
Bucólica – relativo à vida do campo e dos pastores.
Metafísica – parte da filosofia que estuda o ser enquanto ser.
Estoicismo – orientação filosófica que determina sofrer com resignação diante do infortúnio.

FRASES CORRENTES NA ÉPOCA

“O homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”. Rousseau
aurea mediocritas - o meio-termo de ouro; a felicidade deve ser almejada com naturalidade, sem extremos.
Locus amoenus – local ameno, a natureza é um refúgio, lugar de deleite espiritual.
Carpe diem – fórmula do poeta latino Horácio: Viver o momento presente.

ARCADISMO NO BRASIL (1768-1836)
O marco inicial do Arcadismo brasileiro é a publicação das Obras, de Cláudio Manoel da Costa em 1768. A descoberta das minas de ouro e diamante fez com que o eixo político-cultural do país fosse deslocado do Nordeste para Minas Gerais.
A cidade de Vila Rica, hoje Ouro Preto, torna-se o centro dos principais acontecimentos da época. É ali que ocorre a Inconfidência e onde se reúnem os poetas do chamado Grupo Mineiro.
O Arcadismo conheceu duas fases: a primeira, de 1768 a 1808, quando predomina o espírito neoclássico; a Segunda, de 1808 a 1836, é marcada por manifestações pré-românticas.
Houve nítido predomínio da poesia sobre a prosa e os representantes mais significativos foram:
POESIA LÍRICA – Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antonio Gonzaga, Silva Alvarenga, Alvarenga Peixoto e Caldas Barbosa;
POESIA ÉPICA – Cláudio Manuel da Costa, Basílio da Gama e Santa Rita Durão.
POESIA SATÍRICA – Tomás Antônio Gonzaga (Cartas Chilenas) e Silva Alvarenga(O Desertor das Letras).

CARACTERÍSTICAS
O Arcadismo reagiu contra os exageros verbais do Barroco, propondo a clareza, a simplicidade e o equilíbrio clássico.

Cláudio Manuel da Costa

“Alguém há de cuidar que é frase inchada,
Daquela que lá se usa entre essa gente,
Que julga que diz muito e não diz nada.
O nosso humilde gênio não consente,
Que outra coisa se diga, mais que aquilo
Que só convém ao espírito inocente.
A frase pastoril, o fraco estilo.
Da flauta, e da sanfona, antes que tudo,
Será digno que Albano chegue a ouvi-lo.”


Inspirados na frase de Horácio, “Fugere urbem”(fugir da cidade) e levados pela teoria de Rousseau acerca do “bom selvagem”, os árcades voltam-se para na natureza em busca de uma vida simples, bucólica, pastoril:
Cláudio Manuel da Costa

“Se sou pobre pastor, se não governo
Reinos, nações, províncias, mundo, e gentes;
Se em frio, calma, e chuvas inclementes
Passo o verão, outono, estio, inverno;

Nem por isso trocara o abrigo terno
Desta choça, em que vivo, co’as enchentes
Dessa grande fortuna: assaz presentes
Tenho as paixões desse tormento eterno.”


É a presença do “locus amoenus”, o refúgio ameno, calmo, em oposição aos corrompidos centros urbanos monárquicos; a luta do burguês culto contra a aristocracia se manifesta na busca da natureza. Cumpre salientar que esse objetivo configurava apenas um estado de espírito, uma posição política e ideológica, uma vez que todos os árcades viviam nos centros urbanos e, burgueses que eram, lá tinham seus interesses econômicos. Isso justifica falar-se em “fingimento poético” no Arcadismo, fato que transparece no uso de pseudônimos pastoris, ou seja, os poetas árcades assumem um comportamento bucólico e adotam falsos nomes de pastores

“Enquanto pasta alegre o manso gado,
Minha bela Marília, nos sentemos
À sombra deste cedro levantado,
Um pouco medimos
Na regular beleza,
Que em tudo quanto vive, nos descobre
A sábia natureza.”

(recomenda o pastor Dirceu[Tomás Antônio Gonzaga] à sua musa Marília)

Assim, o Dr. Tomás Antônio Gonzaga adota o nome pastoril de Dirceu. O Dr. Cláudio Manuel da Costa é o guardador de rebanhos Glauceste Satúrnio.
Quanto ao aspecto formal, temos: o soneto; o predomínio dos versos decassílabos; a rima optativa e a tradição clássica da poesia épica representada por Cláudio Manuel da Costa e seu Vila Ricas, por Santa Rita Durão e seu Caramuru, por Basílio da Gama e o seu O Uruguai.

AUTORES: PRODUÇÃO LÍRICA
CLÁUDIO MANUEL DA COSTA

Nasceu em Vargem do Itacolomi (Mariana), 1729 e faleceu em Vila Rica(Ouro Preto), 1789. Seu pseudônimo árcade é Glauceste Satúrnio e Nise, sua musa-pastora. Estudou em Vila Rica, no Rio de Janeiro e em Coimbra, onde formou-se em Direito e publicou seus primeiros trabalhos. Retornou ao Brasil em 1753, fixando-se em Vila Rica, onde se dedicou à advocacia e ocupou importantes cargos públicos.
Com a publicação, em 1768, das Obras Poéticas, que reúne seus melhores trabalhos, inaugurou o Arcadismo no Brasil. No prefácio das Obras, é o próprio poeta quem assinala a permanência de algumas características barrocas e o conflito entre a sua formação européia e a realidade rústica e bárbara da pátria. Isso não impediu, contudo, a expansão do seu sentimento nativista e a criação de uma obra lírica de alto nível.
Além dos trabalhos anteriores às Obras, deixou-nos:
O Parnaso Obsequioso, drama musicado, publicado em 1831;
Vila Rica, poemeto épico, de influência camoniana, publicado em 1839, e que trata da penetração para o interior dos bandeirantes, da descoberta das minas, da fundação de Ouro Preto e da pacificação de revoltas.
Além do conteúdo épico, o poemeto desenvolve um conteúdo lírico-amoroso, temperado pelo indianismo e pelo sentimento nativista, o que antecipa certas características do Romantismo. Seus personagens principais são a índia Aurora e o herói Garcia Rodrigues Pais.

“Já rompe, Nise, a matutina Aurora
o negro manto, com que a noite escura,
sufocando o Sol a face pura,
tinha escondido a chama brilhadora.

Que alegre, que suave, que sonora,
aquela fontezinha aqui murmura?
E nestes campos cheios de verdura
Que avultado prazer tanto melhora?

Só minha alma em fatal melancolia,
por te não ver, Nise adorada
não sabe inda, que coisa é alegria,

e a suavidade do prazer trocada,
tanto mais aborrece a luz do dia,
quanto a sombra da noite mais lhe agrada.

SONETO

Não se passa, meu bem, na noite e dia
Uma hora só, que a mísera lembrança
Te não tenha presente na mudança,
Que fez, para meu mal, minha alegria

Mil imagens debuxa a fantasia,
Com que mais me atormenta e mais me cansa:
Pois se tão longe estou de uma esperança,
Que alívio pode dar-me esta porfia!.

Tirano foi comigo o fado ingrato,
Que crendo, em me roubar, pouca vitória,
Me deixou para sempre o teu retrato:

Eu me alegrava da passada glória,
Se quando me faltou teu doce trato,
Me faltava também dele a memória.
[in Tesouros da Juventude, volume 15]

DOÇURA DE AMOR (fragmento)
CALDAS BARBOSA – LÍRICO(*)

Cuidei que o gosto de Amor
Sempre o mesmo gosto fosse,
Mas um Amor Brasileiro
Eu não sei porque é mais doce.

Gentes, como isto
Cá é temperado,
Que sempre o favor
Me sabe(1) a salgado:
Nós lá no Brasil
A nossa ternura
A açúcar nos sabe,
Tem muita doçura,
Oh! se tem! tem.
Tem um mel mui saboroso
É bem bom, é bem gostoso.

As ternuras desta terra
Sabem sempre a pão e queijo,
Não são como no Brasil
Que até é doce o desejo.
(...)
(1) sabe: tem gosto
(*) in Movimentos e estilos literários. Acervo Augusto de Abreu)


TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA
Nasceu em Porto, Portugal em 1744 e faleceu em Moçambique, em 1810. Veio para o Brasil com 7 anos de idade. Fez seus primeiros estudos com os jesuítas. Em Portugal, formou-se em Coimbra e escreveu o Tratado de Direito Natural, tese com a qual se candidatou à carreira universitária. Foi magistrado em Portugal, retornando ao Brasil com 38 anos, na condição de Ouvidor de Vila Rica. Datam dessa época, as Liras de Marília de Dirceu (1ª parte), inspiradas em Maria Joaquina Dorotéia de Seixas, noiva do poeta. Em 1789, foi preso por implicações na Inconfidência Mineira. Remetido para a prisão da Ilha das Cobras, escreve, no cárcere, a segunda parte das Liras. Em 1792, parte, degredado, para Moçambique, onde reconstrói a vida e morre.
Sua principal obra são as liras de Marília de Dirceu, inspiradas em seu romance com Maria Dorotéia.
Esta obra apresenta-se dividida em duas partes distintas: a primeira discorre sobre a iniciação amorosa, o namoro, a felicidade do amante, os sonhos de uma família, a defesa da tradição e da propriedade, sempre numa postura patriarcal:

“Irás a divertir-te na floresta,
sustentada, Marília, no meu braço;
aqui descansarei a quente sesta
dormindo um leve sono em teu regaço
enquanto a luta jogam os pastores,
e emparelhados correm nas campinas
toucarei teus cabelos de boninas,
nos troncos gravarei os teus louvores.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!”

A segunda parte, sob a influência dos sofrimentos provocados pela cadeia, mostra-nos uma série de reflexões que abordam desde a justiça dos homens até os caminhos do destino e a eterna consolação no amor que sente por Marília:

“Nesta triste masmorra,
de um semivivo corpo sepultura,
inda, Marília, adoro
a tua formosura.
amor na minha idéia te retrata;
busca, extremoso, que eu assim resista,
à dor imensa, que me cerca e mata.”

As Cartas Chilenas, por outro lado, completam a obra de Gonzaga. São poemas satíricos em forma de carta que circulavam em Vila Rica às vésperas da Inconfidência, eram assinadas por Critilo e endereçados a Doroteu. A autoria das Cartas foi motivo de longas discussões entre os historiadores; só recentemente definiu-se a questão: Critilo, morador em Santiago do Chile (na verdade, Vila Rica), narra os desmandos e arbitrariedades do governador chileno, Fanfarrão Minésio, um político sem moral(na realidade, Luís da cunha Meneses, governador de Minas Gerais até pouco antes da Inconfidência).

TEXTO I
Cartas Chilenas (fragmento)

“Escuta a história de um modesto chefe
Que acaba de reger a nossa Chile:
Tem pesado semblante, a cor é baça
O corpo de estatura um tanto esbelta,
Feições compridas e olhadura feia,
Tem grossas sobrancelhas, testa curta,
Nariz direito e grande, fala pouco
Em rouco, baixo som de mau falsete,

Sem ser velho, já tem cabeço ruço
E cobre este defeito a fria calva
A força de polvilho, que lhe deita.

Ainda me parece que estou vendo
No gordo rocinante escarranchado
As longas calças pelo umbigo atadas.
Amarelo colete e sobre tudo
Vestida uma vermelha e justa farda.
De cada bolso da fardeta, pendem
Listadas pontas de dois brancos lenços;
Na cabeça vazia se atravessa
Um chapéu desmarcado, nem sei como
Sustenta o pobre só do laço o peso.
[Tomás Antônio Gonzaga]

TEXTO II - LIRA A

“Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
que vivia de guardar alheio gado
de tosco trato, de expressões grosseiro,
dos frios gelos e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal e nele assisto;
dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
das brancas ovelhinhas tiro o leite
e mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!”
[Tomás Antônio Gonzaga]

Lira B
“Eu, Marilia, não fui nenhum vaqueiro,
fui honrado pastor da tua aldeia;
vestia finas lãs e tinha sempre
a minha choça do preciso cheia.
Tiraram-me o casal e o manso gado,
nem tenho a que me encoste um só cajado.

Para ter que te dar, é que eu queria
de mor rebanho ainda ser o dono;
prezava o teu semblante, os teus cabelos
ainda muito mais que um grande trono.
Agora que te oferece já não vejo,
além de um puro amor, de um são desejo.
[Tomás Antônio Gonzaga]


POESIA SATÍRICA
MANUEL INÁCIO DA SILVA ALVARENGA

Nasceu em Vila Rica, em 1749 e faleceu no Rio, em 1814.
O Desertor das Letras, poema escrito quando Silva Alvarenga estudava em Coimbra, caracteriza-se pelo entusiástico apoio dado ao Marquês de Pombal pela civilização do ensino, revolucionária reforma educacional feita na Universidade portuguesa que destituiu os jesuítas das funções de administração e magistério até então exercidas.
Com Glaura, torna-se o exemplo perfeito do estilo rococó em nossa literatura. Com seus rondós e madrigais, envolvidos por intensa musicalidade, apresenta uma “natureza decorativa, onde as pombas e borboletas se cruzam, o mar, o musgo, a areia, as flores e as matas constituem linda moldura carioca para os requintes arcádios”.
Silva Alvarenga pode ser considerado precursor do Romantismo, enquanto não cultua excessivamente as belezas postiças greco-romanas do repertório árcade. Usava o pseudônimo de Alcindo Palmireno.

INÁCIO JOSÉ DE ALVARENGA PEIXOTO
Nasceu no rio de Janeiro em 1744 e faleceu em Angola, em 1793.
Obra irregular e convencional, atrelada aos clichês árcades. Fez poesia encomiástica e laudatória, enaltecendo o despotismo ilustrado do Marquês de Pombal e, por vezes, assumindo uma posição crítica diante da política colonialista portuguesa. É considerado o poeta mais inexpressivo do século XVIII no Brasil, destacando-se, em sua produção, a lira “Bárbara Heliodora” e o soneto “Estela e Nize”. Atribui-se a alvarenga Peixoto o lema da bandeira da Inconfidência, extraída de um verso de Virgílio: “Libertas, quae sera tamem”(= Liberdade, ainda que tardia). A maior parte de sua obra perdeu-se

ESTELA E NIZE

“Eu vi a linda Estela, e namorado
fiz logo eterno, voto de querê-la;
mas vi depois a Nize, e a achei tão bela
que merece igualmente o meu cuidado.

A qual escolherei, se neste estado
Não posso distinguir Nize de Estela?
Se Nize vir aqui, morro por ela;
Se Estela agora vir, fico abrasado.

Mas, ah! que aquela me despreza amante,
Pois sabe que estou preso em outros braços,
E esta não me quer por inconstante.

Vem, cupido, soltar-me desses laços;
Ou faz de dois semblantes um semblante,
Ou divide o meu peito em dois pedaços.”


PRODUÇÃO ÉPICA
BASILIO DA GAMA
(Termindo Sipílio)
José Basílio da Gama nasceu na atual cidade de Tiradentes, em 1741. Estudou no Colégio dos Jesuítas, no Rio de Janeiro, e era noviço em 1759 quando da expulsão daqueles religiosos. Vai para Roma, ingressando na Arcádia Romana com o pseudônimo de Termindo Sipílio. Em 1768, já em Lisboa, é preso por jesuitismo e condenado ao degredo am Angola; livra-se da pena ao escrever um poema exaltando o casamento da filha de Pombal. A partir de então, passa a escrever artigos contra os jesuítas e, no ano seguinte, publica O Uraguai, criticando os jesuítas e defendendo a política pombalina. Em 1774, é nomeado secretário de Pombal. Falece em Lisboa, em 1795. Suas obras: Epitalâmio às Núpcias da Sra. D. Maria Amália e O Uruguai ou
Uraguai(obra-mestra).

O URAGUAI – POEMA ÉPICO
a - Tema Central
Pelo Tratado de Madri, celebrado entre os reis de Portugal e Espanha, as terras ocupadas pelos jesuítas, no Uruguai, deveriam passar da Espanha a Portugal. Os portugueses ficariam com Sete Povos das Missões e os espanhóis, com a Colônia do Sacramento. Sete Povos era habitada por índios e dirigida por jesuítas, que organizaram a resistência à pretensão dos portugueses.
O poema narra o que foi a luta pela posse da terra, travada em princípios de 1757, exaltando os feitos do General Gomes Freire de Andrade; Basílio dedica o poema ao irmão do Marquês de Pombal; combate os jesuítas abertamente.

b – Personagens
General Gomes Freire de Andrade (chefe das tropas portuguesas);
Catâneo (chefe das tropas espanholas);
Cacambo (chefe indígena);
Cepé (guerreiro índio);
Balda (jesuíta administrador de Sete Povos das Missões);
Caititu (guerreiro indígena, irmão de Lindóia);
Lindóia (esposa de Cacambo);
Tanajura (indígena feiticeira).

c - Resumo da narrativa

O poema é dividido em cinco cantos, contrariando o esquema clássico-camoniano de dez cantos:

CANTO I
Saudação ao General Gomes Freire de Andrade. Chegada de Catâneo. Desfile das tropas. Andrade explica as razões da guerra. A primeira entrada dos portugueses, enquanto esperam reforço espanhol.
CANTO II
Partida do exército luso-castelhano. Soltura dos índios prisioneiros, Cepé e Cacambo vêm parlamentar. Não chegam a um acordo. Atos valorosos dos índios.
CANTO III
O General acampa às margens de um rio. Do outro lado Cacambo descansa e sonha com o espírito de Cepé. Este incita-o a incendiar o acampamento inimigo. Cacambo atravessa o rio e provoca o incêndio. Depois, regressa para a sede. Surge Lindóia. Balda prende Cacambo e o mata. Tanajura propicia visões a Lindóia: a índia “vê” o terremoto de Lisboa, a reconstituição da cidade por Pombal, a expulsão dos jesuítas.
CANTO IV
Maquinações de Balda. Pretende entregar Lindóia e o comando dos indígenas a outro. O episódio mais importante: a morte de Lindóia. Para não se entregar a outro homem, deixa-se picar por uma serpente. Os padres e os índios fogem da sede, não sem antes atear fogo em tudo. O exército entra no templo.
CANTO V
Descrição do Templo. Perseguição aos índios. Prisão de Balda. O poeta dá por encerrada a tarefa e despede-se.

d – Apreciação crítica
O poema é escrito em decassílabos brancos, sem divisão em estrofes, mas é possível perceber a sua divisão em partes: proposição, invocação, dedicatória, narrativa e epílogo. Abandona a linguagem mitológica, mas ainda adota o maravilhoso, apoiado no feiticismo indígena. Foge, assim, ao esquema tradicional, sugerido pelo modelo imposto em língua portuguesa, Os Lusíadas. Por todo o poema, perpassa o propósito de crítica aos jesuítas, que domina a elaboração do poema.

MORTE DE LINDÓIA (fragmento)

Este lugar delicioso e triste
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola em seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim, sobressaltados,
E param cheios de temor ao longe,
E nem se atrevem a chamá-la, e temem
Que desperte assustada, irrite o monstro
E fuja, e apresse no fugir a morte.(...)


SANTA RITA DURÃO
Nasceu em Minas Gerais, em 1722. Após os primeiros estudos com os jesuítas no Rio de Janeiro, segue para Portugal, onde ingressa na Ordem de Santo Agostinho. Em 1781, publica o poema épico Caramuru. Falece em Portugal, em 1784.
Caramuru – poema épico do descobrimento da Bahia é o título que consta da capa da edição original, já antecipando seu tema: o descobrimento e a conquista da Bahia por Diogo Álvares Correia, português vítima de um naufrágio no litoral baiano em meados do século XVI. O poema caracteriza-se pela exaltação da terra brasileira e por uma religiosidade extremada. O indígena é tratado dentro de um prisma informativo e é realçada sua condição de objeto de catequese (Paraguaçu, a heroina indígena, é batizada e casa-se com Diogo em cerimônia religiosa na Europa). É evidente a influência camoniana na distribuição da matéria épica e na forma: o poema é composto de dez cantos, versos decassílabos e oitava rima camoniana(ABABABCC). Seus heróis são: Diogo Álvares Correia, o Caramuru; Paraguaçu, e Moema, a bela índia que amava Diogo, que, preterida, morre nadando ao tentar acompanhar o navio em que Diogo e Paraguaçu partem rumo à Europa.

O CARAMURU
A – Tema Central
O poema narra, em dez cantos, o naufrágio de Diogo Álvares Correia e seus amores com as índias, sobretudo com Paraguaçu. O material é vasto; fatos de nossa história, o temperamento dos indígenas, lendas. O poema segue o esquema clássico-camoniano, usando a oitava rima, observando a divisão tradicional em proposição, invocação, dedicatória, narrativa e epílogo. Uso da linguagem mitológica e do maravilhoso pagão e cristão, rigorosamente nos moldes camonianos.
B – Personagens
Diogo Álvares Correia (O “Caramuru”, náufrago português);
Paraguaçu (filha do cacique Taparica);
Gupeva e Sergipe (Chefes indígenas);
Moema (índia amante de Diogo).
C – Apreciação crítica
Costuma-se rotular Santa Rita Durão de passadista. Embora pertença à geração de Cláudio Manuel da Costa, é na de Gonzaga que escreve e publica o seu poema épico, num estilo neocamoniano, em que reminiscências cultistas misturam-se a traços de cosmovisão do seu tempo. Dentre os que vieram a formar com ele a chamada Escola Mineira, é o mais isolado. Não se conhece dele qualquer preocupação teórica que permita relacioná-lo ao movimento, nem se nota em seus versos influência estilística dos árcades.
O Caramuru tem os elementos tradicionais do gênero épico: duros trabalhos de um herói, contato de gentes diversas, visão de uma seqüência história. A sua linha é camoniana e o intuito foi “compor uma brasilíada”.
A narrativa é enriquecida com referência a fatos históricos desde o descobrimento até a época do autor, dando-se grande relevo também à matéria descritiva e informativa. É o caso da descrição do Brasil por Diogo, coroando as tentativas de louvação da terra, prenunciando certos aspectos do nacionalismo romântico.

MORTE DE MOEMA (fragmento)
(abandonada por Diogo, que parte para a Europa com Paraguaçu, Moema atira-se ao mar, perseguindo o navio em que Diogo viajava, até a morte).

(...)
XXXVI

É fama então que a multidão formosa
Das damas que Diogo pretendiam,
Vendo avançar-se a nau na via undosa,
E que a esperança de o alcançar perdiam,
Entre as ondas com ânsia furiosa
Nadando o esposo pelo mar seguiam
E nem tanta água, que flutua vaga,
O ardor que o peito tem, banhando apaga.
(...)

XXXVII
Copiosa multidão da nau frances
Corre a ver o espetáculo assombrada
E, ignorando a ocasião de estranha empresa,;
Pasma da turba feminil que nada.

Uma, que às mais precede em gentileza,
Não vinha menos bela do que irada:
Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.
(...)
Bem puderas, cruel, ter sido esquivo,
Quando eu a fé rendia ao teu engano;
Nem me ofenderas a escutar-me altivo,
Que é favor, dado a tempo, um desengano.
Porém, deixando o coração cativo,
Com fazer-te a meus rogos sempre humanos,
Fugiste-me, traidor, e desta sorte
Paga meu fino amor tão crua morte?
[in Tesouro da Juventude, volume 15]


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