Barroco



CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

Durante o séc. XVI, a Igreja Católica sofrera um duro revés; quase metade da cristandade renascentista passara-se para o protestantismo luterano e calvinista, e a Reforma prosseguia avassaladora, com a adesão da burguesia mercantil e de importantes segmentos da nobreza; o racionalismo grego, a busca da riqueza e dos prazeres terrenos provocaram fundas rupturas no dogmatismo da Igreja Católica, que, atrelada ao espírito ascético do medievo, continuava a combater o lucro e o comércio, entravando o desenvolvimento econômico e bloqueando a difusão do humanismo.
A reação Católica principiou com a convocação de Concílio de Trento (realizado entre 1545 e 1563, na localidade de Trento, Norte da Itália). A cúpula da Igreja, já reunida, deliberou encetar uma Contra-Reforma, que atuou por meio de um órgão executivo- a Santa Inquisição, sistema eclesiástico; ideológico-administrativo, de censura, que, por meio do Tribunal do Santo Ofício, investigava, levava a
julgamento e condenava aqueles que não contribuíssem para a preservação; defesa e propagação da doutrina Católica, nos termos em que fora estatuída no concilio de Trento, Galileu Galilei, Giordano Bruno e Copérnico sofreram, pelas idéias que defendiam, a implacável perseguição inquisitorial, para ficarmos apenas em três famosas vítimas.
Assim, a época da Contra-Reforma e do Barroco é marcado por uma profunda dualidade. Por um lado, é o desdobramento do humano clássico e do Renascimento, com seus apelos ao racionalismo, ao prazer, ao “carpe diem”(aproveite o dia). Por outro lado, o homem é pressionado pela Igreja Católica e pelo protestantismo mais vigoroso a um regresso ao teocentrismo medieval, à postura estóica, à renúncia aos prazeres, à mortificação da carne e à observância plena do “amar a Deus sobre todas as coisas”, princípio capitular do teocentrismo medieval. Em síntese, o homem do século XVII foi compelido a conciliar o Teocentrismo Medieval e o Antropocentrismo Clássico e valores opostos como: fé x razão, alma x corpo, Deus x homem, céu x terra, virtude x prazer. Disse Afrânio Coutinho: “O homem do Barroco é um saudoso da religiosidade medieval e, ao mesmo tempo, um seduzido pelas solicitações terrenas e valores mundanos, amor, dinheiro, luxo, posição, que a Renascença e o Humanismo puseram em relevo. Dessa dualidade nasceu a arte barroca”.

BARROCO NO BRASIL

INTRODUÇÃO
Genericamente, as várias manifestações artísticas que marcaram o século XVII e o início do século XVIII, denomina-se barroco.
Já o termo Seiscentismo engloba as produções dos anos de 1600. E aqui cabe uma observação: é necessário distinguir duas manifestações do Barroco no Brasil-Colônia, geográfica e cronologicamente distintas: o Barroco literário e arquitetônico da Bahia do século XVII, e o Barroco mineiro do século XVIII, que nos deixou uma belíssima produção musical e fantásticas obras arquitetônicas e esculturais, com destaque para o gênio de Aleijadinho. É interessante notar que o Barroco mineiro é uma manifestação tardia, sendo contemporâneo da escola literária do Arcadismo.
No Brasil, Bento Teixeira abre o período barroco com a sua Prosopopéia(1601), escrita em louvor a Jorge de Albuquerque Coelho, donatário da capitania de Pernambuco. É considerada pelos estudiosos como fraca imitação de Os Lusíadas, de Camões. Encerra-se o barroco brasileiro no ano de 1768, quando o neoclássico Cláudio Manuel da Costa publica seu livro de versos OBRAS, em edições posteriores, denominado Obras Poéticas.

CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL

Não houve tipografia e imprensa nos séculos coloniais e as tímidas iniciativas foram categoricamente proibidas pela Metrópole. A Carta Régia de 8 de junho de 1706 determinava “seqüestrar as letras impressas e notificar os donos delas e os oficiais de tipografia que não imprimissem nem consentissem que se imprimissem livros ou papéis avulsos”. Fomos o último povo da América a conhecer a imprensa. A Imprensa Régia foi implantada em 1808, com a vinda de D. João VI, e nosso primeiro jornal, A Gazeta do Rio de Janeiro, apareceu em 10 de setembro de 1808. Mesmo a circulação manuscrita era dificultada pelo alto preço do papel.
Até a expulsão da Companhia de Jesus, em 1759, os jesuítas detiveram o monopólio do ensino.
Formávamos sacerdotes e bacharéis. Essa educação medievalizante, retórica e contra-reformista abafou, durante três séculos, os séculos, os apelos da nova terra, a força de atração do meio tropical e a consciência que os agrupamentos humanos, mestiçados ou não, iam tomando de sua diferenciação. Esses apelos de nova terra irão desaguar no sentimento nativista, fermento de várias rebeliões que, a partir de 1640, atestam a presença de pruridos autonomistas (Amador Bueno, Beckman, Guerra dos Mascates, Emboabas, Vila Rica, Inconfidência Mineira, Revolução dos Alfaiates, os Suassunas e a Revolução Pernambucana de 1817).
Até meados do século XVIII houve duplicidade lingüística: o emprego do português e do tupi. Esse “abrasileiramento lingüístico” tem expressão nos autos de José de Anchieta, na poesia satírica de Gregório de Matos e em alguns momentos do Arcadismo.

DA RESSURREIÇÃO
JOSÉ DE ANCHIETA (1534-1597)

Ó Mãe sempre virgem, ó virgem fecunda,
De nossos prazeres cansamos, o Ave!
Com que quis fechar-se no vosso conclave
O Verbo, do Padre pessoa Segunda.

De novo, Senhora, recebe vossa alma,
Ó Ave sagrada de eterna harmonia!
Pois o que foi morto, com grande alegria,
A morte vencida, ressurge com palma.
(...)
Ó madre de vida, pois tendes tal dia,
Fazei-nos dar vida, que mortos jazemos
E livres da morte, com Jesus tornemos
À vida da graça, com toda a alegria!

[in Tesouro da Juventude, vol. 9]

As academias “literárias” baianas e cariocas foram o último centro irradiador do Barroco literário e o primeiro sinal de uma cultura humanística viva, extraconventual. Aglutinavam religiosos, militares, desembargadores, altos funcionários, reunidos em grêmios eruditos, à imitação das congêneres européias.
Tinham caráter fortemente encomiástico e seus atos acadêmicos destinavam-se à celebração das festas religiosas ou dos feitos das autoridades coloniais. Deram maior contribuição à História e à erudição em geral que à Literatura.
1)Academia de Brasília dos Esquecidos (Bahia, 1724-1725) – Sebastião da Rocha Pita, o Acadêmico Vago, foi seu membro mais notório.
2)Academia Brasília dos Renascidos (Bahia, 1759) – Propunha-se a reviver os Esquecidos.
3)Academia dos Felizes (Rio de Janeiro) – Reuniu-se entre 1736 e 1740).
4)Academia dos Seletos (Rio de Janeiro, 1752) – Foi organizada em homenagem a Gomes Freire de Andrade.

CARACTERÍSTICAS
A mais marcante característica dessa época é exatamente a tentativa de unir os valores medievais, revitalizados pela Contra-Reforma, aos valores da cultura grego-latina, resgatados pelo movimento renascentista.
O homem barroco é um ser angustiado, dividido entre santos católicos e deuses pagãos, entre a matéria e o espírito, o pecado e o perdão.
Os textos literários seiscentistas refletem esse dualismo, mostrando-se rebuscados, extravagantes, valorizando os detalhes, o jogo de palavras e as figuras de linguagem (metáfora, antítese, hipérbole, alegoria), como bem exemplificam os quartetos de dois sonetos líricos de Gregório de Matos, transcritos:

Anjo no nome, Angélica na cara!
Isso é ser flor, e Anjo juntamente:
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós, se uniformara:

Ardor em firme coração nascido;
Pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:”

Podemos notar dois estilos no Barroco literário:
a) Cultismo: caracterizado pela linguagem rebuscada, culta, extravagante; valorização do pormenor mediante jogo de palavras, com forte influência do poeta espanhol Luís de Gôngora (daí o estilo ser conhecido, também, por Gongorismo). Os mais bem elaborados textos cultistas de nossa literatura são os de Gregório de Matos.
b) Conceptismo: marcado pelo jogo de idéias, de conceitos, seguindo um raciocínio lógico, racionalista, usando uma retórica aprimorada. Um dos principais cultores do Conceptismo foi o espanhol Quevedo, donde deriva o termo Quevedismo. Os padres jesuítas desenvolviam de forma brilhante esse elaborado jogo de conceitos, com destaque para o Padre Antônio Vieira.

GREGÓRIO DE MATOS GUERRA
(Bahia, 1636 – Pernambuco, 1695)
Filho de senhores de engenho na Bahia, viveu entre a Colônia e a Metrópole. Bacharel em leis, advogado na Corte, teve vida atribulada. Andarilho, violeiro, conheceu a prisão , e o exílio em Angola por dois anos. Incompatibilizado com autoridades civis e eclesiásticas pela maldade, irreverência e justeza de suas sátiras foi, desde sempre, “poeta maldito”. Sua obra permaneceu praticamente inédita até o século XX, apesar da popularidade de que desfrutou na Bahia, onde seus poemas circulavam em cópias manuscritas e eram constantemente oralizados pelo povo.

OBRAS
Não há um texto definitivo (edição crítica) da poesia de Gregório de Matos e não se encontrarão dois poemas absolutamente iguais nas diversas edições que se seguiram à primeira tentativa de organizar, já no século XX, sua suposta “obra completa”. Nada tendo publicado em vida, e expurgado de nossa vida literária durante dois séculos, os códices (= coleções de cópias manuscritas) e compilações trazem infinitas variantes.
Esquematicamente, podemos agrupar assim a poesia de Gregório de Matos:
I – Poesia satírica
II – Poesia lírica
amorosa
erótico-irônica
sacra ou religiosa
reflexiva ou filosófica
III – Poesia encomiástica
poemas de circunstância
poemas laudatórios

A POESIA SATÍRICA
Ninguém escapou da língua ferina do “Boca do Inferno”: autoridades, comerciantes, padres, freiras, juizes, militares, brancos, pretos, mulatos, índios. Mas havia dois alvos prediletos: o relaxamento moral na Bahia e os “caramurus”, primeiros colonos nascidos aqui e que aspiravam à condição de fidalgos.

Texto I
Descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia

A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um bem freqüente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres;
E eis aqui a cidade da Bahia.

Comentário
O azedume das sátiras de Gregório de Matos se justifica, em parte, pela condição de intelectual branco, formado na Metrópole, e que não era reconhecido na Bahia.

Texto II
Retrato anatômico dos achaques de que padecia àquele tempo a cidade da Bahia (fragmentos)

Que falta nesta cidade? ... Verdade.
Que mais por sua desonra? ... Honra.
Falta mais que se lhe ponha? ... Vergonha.

O Demo a viver se exponha
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.

E que justiça a resguarda? ... Bastarda.
É grátis distribuída? ..., Vendida.
Que tem, que todos assusta? ... Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça,
Que anda a justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

O açúcar já se acabou?... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu? ... Subiu.
Logo já convalesceu? ... Morreu.
Na Bahia aconteceu
O que a um doente acontece
Cai na cama, e mal cresce,
Baixou, subiu e morreu.

E nos Frades há mangueiras? ... Freiras.
E o que ocupam os serões? ... Sermões.
Não se ocupam em disputas? ... Putas.
Com palavras dissolutas
Me concluo, na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.

Comentário
Por trás da contundência da sátira observe a habilidade na construção das estrofes pelo processo de disseminação-e-recolha: o último verso de cada estrofe repete e dispõe no plano horizontal as três palavras que finalizam os três primeiros versos da estrofe.

POESIA SATÍRICA DE GREGÓRIO DE MATOS GUERRA


A CIDADE DA BAHIA(*)

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado,
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mim abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz brichote.

Oh, se quisera Deus, que, de repente,
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

Comentário
A poesia de Gregório de Matos “abrasileiriza” imagens, temas, assuntos e a língua literária do país, incorporando gírias e inventando palavras, tais como “brichote”, que significa estrangeiro – é uma classificaçào depreciativa - . Com esses procedimentos, Gregório adapta o barroco europeu ao gosto popular do país – um povo e um país tão marginalizado quanto o poeta.
(*) [in Movimentos e estilos literários, de Benjamin Abdala Júnior. Acervo Augusto de Abreu]

A LÍRICA AMOROSA

Apresenta-se sob o signo da dualidade barroca, oscilando entre a atitude contemplativa, o amor elevado, e a obscenidade e o carnalismo.
Os textos abaixo demonstram cabalmente o conflito carne x espírito, mediante duas definições do amor.

I
“O Amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.

Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas,
quem diz outra coisa é besta.”

II
“Ardor em firme coração nascido;
pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:

Tu, que em um peito abrasas escondido;
Tu, que em um rosto corres desatado;
Quando fogo, em cristais aprisionados;
Quando cristal, em chamas derretido.”

A LÍRICA SACRA – A CULPA E O ARREPENDIMENTO
Expressa a cosmovisão barroca: “a insignificação do homem perante Deus, a consciência nítida do pecado e a busca do perdão. Ao lado de momentos de verdadeiro arrependimento, muitas vezes o tema religioso é utilizado, como simples pretexto para o exercício poético, desenvolvendo engenhosos jogos de imagens e conceitos.

A Cristo N.S. crucificado estando o poeta na última hora de sua vida

1 Meu Deus, que estais pendente de um madeiro,
2 Em cuja lei protesto de viver,
3 Em cuja santa lei hei de morrer,
4 Animoso, constante, firme e inteiro:

5 Neste lance, por ser o derradeiro,
6 Pois vejo a minha vida anoitecer,
7 É, meu Jesus, a hora de se ver
8 A brandura de um Pai, manso Cordeiro.

9 Mui grande é o vosso amor e o meu delito;
10 Porém pode ter fim todo o pecar,
11 E não o vosso amor, que é infinito.

12 Esta razão me obriga a confiar,
13 Que, por mais que pequei, neste conflito
14 Espero em vosso amor de me salvar.

Comentário
Nas duas primeiras estrofes, o poeta expressa a contrição religiosa e a crença no amor infinito de Cristo, para manifestar, no final, a certeza do perdão. O soneto encobre uma formulação silogística, que se pode expressar dessa maneira: o amor de Cristo é infinito (verso 11); o meu pecado, por maior que seja, é finito, e menor que o amor de Jesus (versos 9 e 10). Logo, por maior que seja o meu pecado, eu espero salvar-me(versos 13 e 14).

A LÍRICA REFLEXIVA OU FILOSÓFICA
Quanto o texto nos fala de comportamentos: condenando uns, exaltando outros. Moralismo ético extraído de máximas ou idéias feitas, onde ainda o proceder poético se avulta.

Logo em sentir, em respirar sucinto,
Peno e calo, tão fino, e tão atento,
Que fazendo disfarce do tormento,
Mostro que o não padeço e sei que o sinto.

O mal, que fora encubro ou que desminto,
Dentro do coração é que o sustento
Com que, para pensar é sentimento;
Para não se entender é labirinto.

Ninguém sufoca a voz nos seus retiros:
Da tempestade é o estrondo efeito:
Lá em ecos a Terra, o Mar, suspiros.

Mas, oh, do meu segredo alto conceito!
Pois não chegam a vir à boca os tiros
Dos combates que vão dentro do peito.

A LÍRICA ENCOMIÁSTICA(aplauso, elogio, gabo, louvor)
Gregório de Matos escreveu também poemas laudatórios, de poesias de circunstância (festas, homenagens, fatos corriqueiros). Um exemplo curioso é o poema que transcrevemos, que homenageia o desembargador Belchior da Cunha Brochado:

Dou pruden nobre humana

>to >te >no
Re cien benig

afá úni singular
>vel >co >ro
e aprazí magnífi pleca

do mun grave ju inimitá
>do >is >vel
admira goza aplauso incrí

po a trabalho tan et
>is >to >ão
da pron execuç

inflexí terrí
>vel >vel
incompará sempre incansá

COMENTÁRIO
O elemento lúdico (= de jogo) do Barroco é a marca predominante do texto. À maneira da poesia concreta, Gregório de Matos espacializa o soneto, atomizando as palavras e utilizando o interespaço entre os versos com sílabas que constituem a rima. Cria-se, desta maneira, certa dificuldade de leitura, exigindo do leitor uma participação ativa na desmontagem do soneto “quebra-cabeça”.

PADRE ANTONIO VIEIRA
Nascido em Lisboa, em 1608, veio para o Brasil com sete anos. Em 1623, entra na Companhia de Jesus, ordenando-se padre em 1634. Após a Restauração, movimento pelo qual Portugal liberta-se do domínio espanhol em 1640, retorna à terra natal, saudando o rei D. João IV, de quem se torna confessor. Estréia na Capela Real de Lisboa em 1642 com o Sermão dos Bons Anos; a partir de então, dedica-se com muita disposição às questões políticas de Portugal.
Politicamente, Vieira tinha contra si: a pequena burguesia cristã, por defender o capitalismo judaico e os cristãos-novos; os pequenos comerciantes do Brasil, por Ter ajudado na criação de um monopólio mercantil no Maranhão (que geraria a Revolta de Beckman, em 1684); os administradores e os colonos, por defender os índios. Essas posições, notadamente a defesa dos cristãos-novos, custaram a Vieira uma condenação pela Inquisição (permaneceu dois anos preso). Faleceu em 1697, na Bahia.

OBRAS

Além dos Sermões, sua obra inclui três volumes de Cartas e obras proféticas, como História do Futuro e, em latim, Clavis Prophetarum ( “Chave dos Profetas”) , ainda inédita.

Estrutura dos Sermões
Os Sermões de Vieira têm estrutura tradicional: clássica.
- proposição do tema, em geral trecho da Bíblia;
- intróito, em que expõe o plano segundo o qual se desenvolverá o sermão;
- invocação, geralmente a Nossa Senhora;
- argumentação, que consiste no desenvolvimento do tema e inclui exemplos e sentenças;
- peroração ou epílogo.

SERMÃO DA PRIMEIRA DOMINGA DA QUARESMA

Também denominado Sermão do Cativo, foi pregado no Maranhão, em 1653. Nele o orador tenta persuadir os colonos a libertarem os indígenas que compara aos
hebreus cativos do faraó. Na corte, atuou na defesa do índio contra os colonos e lá pregou, em 1662, o Sermão da Epifania: “que os homens de qualquer cor, são todas iguais por natureza, e mais iguais ainda por fé”, afirma o pregador defendendo afiliação comum e universal do homem a um Deus criador e único.

TEXTO
No Sermão da Primeira Dominga da Quaresma, imagina-se no lugar dos colonos que tivessem de se desfazer de seus escravos e indaga:
“Quem nos há de ir buscar um pote de água, ou feixe de lenha? Quem nos há de fazer duas covas de mandioca? Hão de ir nossas mulheres? Hão de ir nossos filhos? “
E ele próprio responde, desassombradamente:
“Quando a necessidade e a consciência obriguem a tanto, digo que sim, e torno a dizer que sim: que vós, que vossas mulheres, que vossos filhos e que todos nós nos sustentássemos de nossos braços, porque melhor é sustentar do suor próprio que do sangue alheio. Ah! fazendas do Maranhão; que se esses mantos e essas capas se torcerem, haviam de lançar sangue”.

SERMÃO XIV DO ROSÁRIO
Pregado na Bahia, para uma irmandade de pretos, revela a repulsa ao preconceito de cor e ao tratamento cruel a que eram submetidos os escravos:
Texto
“Em um engenho sois irritadores de Cristo Crucificado: porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz, e em toda a sua paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho é de três. (...) Cristo despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. (...) Eles mandam, e vós servis; eles dormem, e vós velais; eles descansam, e vós trabalhais; eles gozam o fruto de vossos trabalhos, e o que vós colheis deles é um trabalho sobre outro. Não há trabalhos mais doces que os das vossas oficinas; mas toda essa doçura para quem é? Sois como as abelhas, de quem disse o poeta: “Sic vos non vobis mellificatis apes”.
Verso atribuído a Virgílio: “Assim vós, mas não para vós, fabricais o mel, abelhas.”
Mas, paradoxalmente, estabelece uma cabal diferença entre o preto gentio, entregue à sua própria sorte na África, e o preto submetido à fé católica. Chega a bendizer a escravidão que trouxe o negro ao Brasil e ao cristianismo:
“deveis dar infinitas graças a Deus por vos ter dado conhecimento de si e por vos ter tirado de vossas terras, onde vossos pais e vós viveis como gentios, e vos ter trazido a esta onda, instruídos na Fé, vivais como cristãos e vos salveis.”(...)
Oh se a gente preta tirada das brenhas de sua Etiópia,, e passada ao Brasil, conhecera bem quanto deve a Deus e à sua Santíssima mãe por este que pode parecer desterro, cativeiro e desgraça, e não é senão milagre e grande milagre!”

OS SERMÕES SEISCENTISTAS: VIEIRA(*)

SERMÃO DO BOM LADRÃO

Pregado em 1655, em Lisboa, traz a distinção entre o ladrão comum, que eventualmente furta para sobreviver, e o ladrão que, amparado pelo poder, rouba cidades e reinos.

TEXTO – CANTO V
“Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo, não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e a vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida (...).O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam de que eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera (...). Não são só ladrões, diz o Santo[São Basilio Magno], os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais, já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor nem perigo; ou outros, se furtam, são enforcados; estes furtam e enforcam. Diógenes(1), que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas(2), e ministros da justiça levavam e enforcar uns ladrões, e começou a bradar: Lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos.”

Comentário:
As repetições do texto de Vieira vêm do fato de que o sermão era feito para ser ouvido pelo público e, como no fragmento acima, elas ocorrem para persuadir esses ouvintes. Vieira foi um autor barroco e podemos encontrar em suas obra as características desse movimento, tais como o uso de contínuas antíteses, comparações, hipérboles, etc. Seu texto é essencialmente persuasivo e, enquanto tal, os jogos de palavras obedecem a uma finalidade prática, isto é, a retórica em função de seu discurso crítico. Vieira colocou-se contra o uso da palavra num sentido apenas lúdico, para provocar prazer estético. Observe no exemplo como ele realiza uma crítica aos setores sociais que dominam opoder de Estado – uma crítica ainda hoje justa e de atualidade.
(1) Diógenes:filósofo grego
(2) Varas: funcionários das jurisdições
(*) in Movimentos e estilos literários, acervo augusto de Abreu)

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