Humanismo



CONTEXTO HISTÓRICO
No final da Idade Média, a Europa passa por profundas transformações; a imprensa é aperfeiçoada, permitindo maior divulgação de livros; a expansão marítima, impulsionada graças ao desenvolvimento da construção naval e à invenção da bússola, propicia o desenvolvimento do comércio. Surge o mercantilismo, e com ele a economia baseada exclusivamente na agricultura perde em importância para outras atividades. As cidades portuárias crescem, atraindo camponeses; surgem novas profissões e pequenas indústrias artesanais começam a se desenvolver.
Nessas pequenas cidades, chamadas burgos, surge uma nova classe social – a burguesia - , composta por mercadores, comerciantes e artesãos, que passa a desafiar o poder dos nobres.
O espírito medieval, baseado na hierarquia nobreza-clero-povo, começa a desestruturar-se. O homem medieval, preso ao feudo e ao senhor feudal, adquire nova consciência. Diante do progresso, percebe-se como força criadora capaz de influir nos destinos da humanidade, descobrindo, conquistando e transformando o Universo.
O homem descobre o homem.
A idéia de que o destino estivesse traçado por forças superiores, que caracterizava o homem como um ser passivo, vai sendo substituída pela crença de que ele é o mentor do seu próprio destino.
O misticismo medieval começa a desaparecer, e o teocentrismo dá lugar ao antropocentrismo.

OS HUMANISTAS
O homem valoriza o saber: consome mais livros, difunde novas idéias e volta a sua atenção para a cultura de antigos gregos e latinos, porque nela identifica o novo espírito da época.
Surgem os humanistas: homens da Igreja, artistas e professores protegidos por mecenas.
Os humanistas difundiam a idéia de que os valores e direitos de cada indivíduo deviam sobrepor-se à sociedade. Grandes admiradores da cultura antiga, estudavam, copiavam e comentavam os textos de poetas e de filósofos greco-latinos, cujas idéias seriam amplamente aceitas no Renascimento, movimento de renovação que atingiu a sua plenitude entre os séculos XV e XVI.
O humanismo foi, portanto, o movimento cultural que, a par do estudo e da imitação dos autores greco-latinos, praticou um ato de fé pela natureza humana. Fez do homem o objeto do conhecimento, reivindicando para ele uma posição de importância no contexto do Universo, sem, contudo, negar o valor supremo de Deus.


CANTIGAS PORTUGUESAS
(Antônio Correia d’Oliveira)

Quando Deus fez este mundo,
Dos seis dias que levou
Foram cinco em Portugal;
No resto, um só, e sobrou.

Vou mandar pôr na Cartilha:
Quando Deus formou Adão,
Foi de terra portuguesa
Que fez o seu coração.

Sou português de nascença,
Sou triste por simpatia...
Conheço-te pela rama
Raiz de terra sombria.

No céu há uma janelinha:
Vê-se Portugal por ela;
Quando Deus se sente triste,
Vai sentar-se junto dela...

Portugal, de tanto andar,
É tal qual como um velhinho:
Deita os seus olhos atrás,
Não se atreve a mais caminho.

Ai! de quem chama aos outros
Aquilo que chamou seu:

Ai! triste de quem tem sede

Da água que já bebeu.
(...)

[in Tesouro da Juventude, volume 9]

CANTIGA
(Bernardino Ribeiro – 1482-1552)

Pensando-vos estou, filha;
Vossa mãe me está lembrando;
Enchem-se-me os olhos d’água.
Nelas os estou lavando.
Nascestes, filha, entre mágoa,
Para bem inda vos seja,
Que no vosso nascimento
Vos houve a fortuna inveja.
Morto era o contentamento,
Nenhuma alegria ouvistes;
Vossa mãe era finida,
Nós outros éramos tristes.
Nada em dor, em dor crescida,
Não sei onde isto há de ir ter;
Vejo-os, filha, formosa,
Com olhos verdes crescer.
Não era esta graça vossa
Para nascer em desterro;
Mal haja a desaventura
Que pôs mais nisto que o erro.
(...)

[Cantiga direta sem estrofe com rimas alternadas]

CANTIGA PRAIANA
(Vicente de Carvalho – 1866-1924)

Eu sou como aquela fonte
Que vai, tão triste, a chorar:
Desce da encosta do monte,
Corre em procura do mar.

Perdição da minha vida.
Meu amor! bem compreendido
Onde vou nesta descida...
E vou chorando e descendo.

Pobre da fonte, baqueia
Na vargem, sempre a chorar,
E turva, turva de areia,
Corre... corre para o mar...

Perdição de minha vida,
Amor que me vais levando!
Terá fim esta descida?
Há de ter... Mas onde? e quando?

Com pouco mais que descais
Lá vai a fonte parar:
Chega na beira da praia...
Morre nas ondas do mar...

[quartetos com rimas no 1ª e 3º , 2º e 4º versos]
[in Tesouro da Juventude, volume 16]

MANIFESTAÇÕES LITERÁRIAS DA ÉPOCA

1. TEATRO VICENTINO
Não é conhecido ao certo o ano de nascimento de Gil Vicente. Alguns assinalam que teria nascido em 1465 ou 1466, e morrido entre 1536 e 1540. Sabemos que iniciou sua trajetória teatral a 7 de junho de 1502, quando representando os servidores do palácio, declamou em espanhol o Monólogo do vaqueiro(ou Auto da visitação) na câmara de D. Maria de Castela, por ocasião do nascimento do futuro rei D. João III, filho de D. Manuel.
Vivendo em plena crise dos valores medievais, Gil Vicente é um autor que, apesar de humanista, ainda permanece mais voltado para a tradição do que para a modernidade. Seu teatro tem caráter popular e se utiliza de temas da Idade Média, como as narrativas de origem cavaleiresca, o lirismo das cantigas, os quadros religiosos medievais (mistérios e milagres) encenados em datas como Natal e Páscoa.
Gil Vicente sempre foi extremamente crítico para com a sociedade do seu tempo, retratando-a com mordacidade e comicidade extremas, que não perdoavam nem a fidalguia, nem a plebe, nem a burguesia ou o clero, mesmo sendo um católico de profunda fé cristã, aspecto que também aparece em sua obra. Suas peças principais são: Auto da alma, Trilogia das barcas(divididas em Auto da barca da glória, Auto da barca do inferno e Auto da barca do purgatório), Auto de Fé, Auto da Índia, Auto da Lusitânia, A farsa de Inês Pereira, Farsa do velho da horta, Quem tem farelos? E Juiz da Beira.

2. PROSA DO HUMANISMO
Neste período destaca-se o cronista Fernão Lopes. Nascido em 1378 ou 1383, sua importância deve-se ao fato de ele Ter dado enfoque científico à historiografia portuguesa.
Adotando a investigação e a pesquisa como métodos de trabalho, percorria mosteiros e igrejas, consultando livros, correspondências, epitáfios e pessoas para melhor documentar-se.
Fernão Lopes aponta a interferência dos fatos econômicos nos destinos dos homens, a importância do povo como agente da História, e apresenta-nos um panorama da sociedade portuguesa, em estilo simples, elegante e coloquial.
Suas principais obras são: Crônica de el-Rei D. Pedro, Crônica de El-Rei D. Fernando e Crônica de El-Rei D. João I, sua melhor obra, em que o herói é o povo.

3. POESIA PALACIANA
Ao contrário da poesia trovadoresca, que estava associada à música e era cantada ou bailada, a poesia palaciana foi elaborada para ser lida e recitada nas cortes. Cultivada pelos fidalgos nos serões dos palácios, donde lhe vem o nome poesia palaciana, caracteriza-se por ser mais apurada, atraente e variada do que aquela do início dos tempos de formação da nacionalidade portuguesa.
Inspiravam-se os poetas palacianos nos feitos históricos, nos conceitos didáticos, sem abandonar, contudo, temas comuns aos trovadores medievais: a coita amorosa, a súplica triste e apaixonada, a sátira. Seus poemas estão reunidos no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, publicado em 1516. 


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