Travadorismo


AS RAÍZES DA LITERATURA PORTUGUESA

- A cultura oral e o Trovadorismo de Provença
O aparecimento da Literatura Portuguesa coincide, a bem dizer, com o aparecimento de Portugal como nação livre. A primeira manifestação literária portuguesa de que se tem notícia, a Cantiga da Ribeirinha (ou “Cantiga da Guarvaia”), de Paio Soares de Taveirós, é de aproximadamente 1198(?) e a independência do país data de 1143, ano em que Portugal tem reconhecida a sua emancipação dos Reinos Cristãos (Leão, Castela, Navarra, Aragão).

TROVADORISMO
A literatura medieval portuguesa costuma ser dividida em dois períodos. No primeiro período floresce o Trovadorismo, nome que tem a sua origem na palavra troubador, como eram chamados os poetas de Provença, região do sul da França, de onde se acredita terem sido levadas a Portugal as cantigas de amor. As cantigas de amor eram poemas feitos para serem cantados com o acompanhamento de instrumentos musicais, e caracterizam a produção literária da época.

CANTIGAS TROVADORESCAS
O início da fase moderna na língua portuguesa tem como marco a publicação do poema Os Lusíadas, de Luis de Camões, em 1572, poema de unificação, renovação e enriquecimento sintático-vocabular da língua. O dialeto galaico-português era a língua utilizada pelos trovadores, que através dela nos legaram dois tipos de cantiga.
a) lírico-amorosa: cantiga de amor e cantiga de amigo;
b) satírica: cantiga de escárnio e cantiga de maldizer.

CARATERÍSTICAS DAS CANTIGAS TROVADORESCAS
CANTIGA DE AMOR

1– O trovador assume o eu-lírico masculino: é o homem quem fala.
2– A mulher é um ser superior, pertence a uma categoria social mais elevada que a do trovador.
3– Expressa a coita (dor, sofrimento) amorosa do trovador, por amar uma mulher inacessível, que não lhe corresponde e a quem rende vassalagem amorosa.
4– O ambiente, culto e refinado, retrata a vida na corte.
5– É de origem provençal (de Provença, região do sul da França).

Paio Soares de Taveirós
Como morreu quem nunca amar
se fez pela coisa que mais amou,
e quanto dela receou
sofreu, morrendo de pesar,
ai, minha senhora, assim morro eu
.

CANTIGA DE AMIGO
1 – O trovador assume o eu-lírico feminino: é a donzela quem fala.
2 – A mulher, campesina ou urbana, é de nível social baixo.
3 – Expressa o sentimento de quem sofre por sentir saudade do amigo (namorado) que
foi combater os mouros invasores.
4 – O ambiente é rural ou familiar.
5 – Teve origem em território galaico-português.
Exemplo:
Por muito tempo, ó amado,
Sei eu que me dedicastes
Grande amor e que ficastes
Muito feliz a meu lado
Falo do tempo passado!
Já passou. (João Garcia de Guilhade)

CANTIGA DE ESCÁRNIO
1– Cantiga de caráter satírico, em que o ataque se processa indiretamente, por
intermédio da ironia e do sarcasmo.
2– Criticava pessoas, costumes e acontecimentos, sem revelar o nome da pessoa ou pessoas visadas.

João Garcia de Guilhade

Ai, dona feia, foste-vos queixar
de que nunca vos louvei em meu trovar;
e uma das trovas vos quero dedicar
em que louvada de toda a maneira
sereis; tal é o meu louvar:
dona feia, velha e sandia!


CANTIGA DE MALDIZER

1– Cantiga de caráter satírico, em que o ataque se processa diretamente.
2– Criticava pessoas, costumes ou acontecimentos, citando o nome da pessoa ou pessoas visadas. D. Afonso X, o SábioTrovas não fazeis como provençal
mas como Bernaldo o de Bonaval.
O vosso trovar não é natural.
Ai de vós., com ele e o demo aprendestes.
Em trovardes mal vejo eu o sinal
das loucas idéias em que empreendestes.Por isso D. Pero em Vila-Real
Fatal a hora em que tanto bebestes.

HIERARQUIA DOS ARTISTAS MEDIEVAIS
CANCIONEIROS
Na hierarquia dos artistas medievais distinguiam-se quatro categorias:
a) o trovador: pessoa culta, fidalga, que não só escrevia a poesia, mas também era capaz de compor música e apresentar o seu trabalho, sem receber qualquer recompensa material;
b) o segrel: trovador profissional, geralmente um fidalgo decaído, que ia de corte em corte, de castelo em castelo com o seu executante (o jogral);
c) o jogral: designação que tanto poderia pertencer ao saltimbanco como ao ator mímico, ou simplesmente ao compositor; cantava nas festas e nos torneios as poesias de trovadores e segréis em troca de pagamento, às vezes, rivalizando com estes na elaboração da letra e da música;
d) o menestrel: músico ligado à determinada corte. Colecionadores sensíveis recolheram muitas das canções dos trovadores e organizaram coletâneas ou cancioneiros, dentre os quais os principais são:
- O Cancioneiro da Ajuda, possivelmente do século XIII ou do início do século XIV, contendo, na sua maioria, cantigas de amor, em 88 folhas de papel-pergaminho;
- O Cancioneiro da Vaticana, descoberto na Biblioteca do Vaticano, contendo 1205 cantigas, sendo cópia de um original extraviado;
- O Cancioneiro da Biblioteca Nacional, também conhecido por Colocci-Brancuti, nome dos seus últimos possuidores, contendo 1647 composições; pertence ao governo português;
- As Cantigas de Santa Maria, reunindo 426 composições acompanhadas da respectiva música.

PROSA MEDIEVAL
A partir do século XIII surgem as novelas de cavalaria, traduzida do francês e do inglês. Originariamente, eram poesias de temas guerreiros, chamadas canções de gesta, que passaram a ser redigidas em prosa. De fundo teocêntrico e cavaleiresco, contavam as aventuras dos reis e seus cavaleiros; uma delas, a Demanda do Santo Graal, evocava o rei Artur e seus companheiros, que habitualmente se reuniam em volta de uma mesa – a távola redonda. Todos se esforçam por descobrir o Santo Graal, a taça em que Jesus bebera durante a última ceia.
Floresceram também formas paraliterárias:
- os cronicões: livros de crônicas que deram origem ao início da historiografia portuguesa.
- as hagiografias: vidas de santos;
- os livros de linhagem (ou nobiliários): relações de nomes, geralmente de fidalgos, com a intenção de estabelecer graus de parentesco a fim de evitar casamentos entre parentes próximos e dirimir dúvidas no caso de heranças.
- Didaticamente, considera-se como marco final desta época o ano de 1418, quando Fernão Lopes é nomeado guardador da Torre do tombo, assinalando o início do Humanismo em Portugal.

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