Virgilio Várzea

 
 
Nasceu em 6 de janeiro de 1862 na freguesia de Canasvieiras, município de Desterro, extremo nordeste da Ilha de santa Catarina, em cuja praia ocidental crescia lentamente a capital da província, hoje cidade de Florianópolis. Veio à luz numa pequena casa rural, situada à beira da principal estrada do lugar, denominada Rua Velha. Casa e fazenda eram propriedade do avô materno Luiz Alves de Brito, major da Guarda Nacional, que exerceu durante muitos anos, alternadamente, os cargos de Juiz e delegado de polícia.(...) Engenhos, ranchos, canoas, praias, promontórios são paisagens constantes nos livros do escritor – motivos embutidos por atavismo de resto nesse meio ruralista e marinheiro, luminoso e colorido, viveu até os nove anos.A herditariedade ia marcar tanto mais poderosamente sua carreira literária quanto era filho do capitão de longo curso João Esteves Várzea, donde a paixão pelo navio e pelo oceano, saliente e constante numa longa vida, realmente capaz de engendrar o criador do gênero marinhista na literatura latino-americana. São perfeitas fotografias, tomadas na infância e na adolescência numerosos quadros de seus romances e contos – fotografias a cores do “Brigue Flibusteiro”, dos “Mares e Campos”, “Histórias Rústicas”, “Nas Ondas”, “Contos de Amor”, “Rose Castle”. Ao recordar os primeiros anos, salientava sempre que aprendera a nadar ao mesmo tempo que a caminhar, tendo conhecido as manobras dos veleiros antes do carro de boi e do cavalo, pois o pai levava mãe e filho a bordo dos patachos e sumacas, em cabotagem entre Recife e o Rio Grande. Na escola primária teve por colega João da Cruz e Sousa. Aos 16 anos engajou-se como praticante de piloto do bugre “Lívia”, conhecendo assim Montevidéu, Buenos Aires e a costa da Patagônia até a boca do Estreito de Magalhães, onde viveu os transes de uma tempestade que jamais esqueceu. Regressando ao Rio de Janeiro, passou-se para bordo da polaca-goleta “Mercedes”, de bandeira espanhola, registrada em Barcelona, com marinheiros catalães, de tão bela tradição no Mediterrâneo, conheceu as Antilhas, Cuba, Havana, numerosos portos do Mar dos Caribes, inclusive aqueles da Venezuela e da Colômbia, no tope setentrional da América do Sul. Visitou os lugares onde vivia a lembrança das façanhas mais terríveis dos piratas do século XVII, ganhando a semente que iria desabrochar no “Brigue Flibusteiro”.Regressando ao Brasil, fez parte da equipe do brigue “Theodoro”, viajando ao Cabo Verde. Quando em Gamboa, seu comandante apresentou-lhe as preocupações da mãe que de há muito não via seu filho. Então, Xavier de Souza empregou o jovem piloto na loja de papéis e trabalhos litográficos de Esteves Júnior, no Rio. Na loja, Virgilio ao mesmo tempo em que vendia cadernos e tinta, iniciava-se entusiasticamente nos ideais anti-monárquicos, em trabalhos de revisão e redação. Foi aí que pegou aquilo que depois chamaria o “micróbio da escrita”. Porém, em uma bela manhãpulou a bordo da barca “Amistad”, de saída para o Cabo da Boa Esperança e para o Oceano Indico. Destarte, depois de conhecer o Atlântico cruzou durante longos meses entre portos da África Oriental e do Sul da Ásia. Em 1881 assumia a presidência de Santa Catarina o escritor e cientista dr. Gama Rosa, que ao ler o soneto Transformismo, surpreendeu-se que naquele meio atrasado existisse alguém que lesse Darwin e o interpretava. Convidou-o para que trabalhasse com ele. Daí para frente Virgilio deslanchou na literatura.

(Maiores informações no Anuário Catarinense – que completa este texto, 1953).

[Acy Coelho, ao ler Mares e Campos, assim disse de Virgilio Várzea: Vi o mar nas suas alegrias e tragédias e comecei a amar (criaturas de outros pagos) aqueloutra vida cheia de inquietação e doçura e compreendi o artista catarinense, cujo belo espírito, libertado de outras fascinações, radiava para espíritos distantes, a beleza e a alma eterna de sua terra!]

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