Luiz Delfino (dos Santos)

 
 
Nasceu a 25 de agosto de 1834, na rua Augusta, hoje rua João Pinto, de família católica, recebendo o nome do santo do dia, São Luis, rei da França, ao ser batizado, no dia 21 de outubro, na Matriz de Nossa Senhora do Desterro. Seu pai Tomás dos Santos Ferreira Lobo, aventureiro português, abandonou definitivamente seu sobrenome Ferreira Lobo, assinando-se simplesmente Tomás dos Santos. E o filho chamou-se Luiz dos Santos. Era de saúde débil, nos primeiros meses. Cresceu na liberdade de criança, ainda muito cercado pela natureza, cuidado por diversas amas e escravos – Ana, Teresa, Pai João... pessoas dóceis e resignadas em sua condição servil, que o poeta mais tarde, cantou em sonetos. Com seis anos, foi matriculado no Colégio dos Jesuítas, quando seu nome foi acrescido de Delfino, em homenagem à mãe Delfina.
Os jesuítas mantinham seu ensino caracterizado por disciplina rígida obediência e profundas noções religiosas, além de acentuarem o estudo do latim. Essa fase de estudo imprime marcas no adolescente, que caracterizarão mais tarde seu poema: as noções religiosas permanecerão na mente do poeta e se desdobrarão mais tarde, no maçônico espírito racionalista, em constantes inquietações metafísicas; a Bíblia, além do fundamento religioso, contribui para despertar toda uma iniciação ao exótico oriente; os estudos de latim lhe abriram acesso à poética clássica de Horácio, Ovídio e Virgílio, de quem extrairá inúmeras epígrafes para seus poemas. Em viagem ao Rio com o pai e o irmãos em fins de 1850, lá os irmãos permaneceram por oito anos vivendo em casa de Luiz Antonio Alves de Carvalho, sendo tratados como filhos.
Luiz Delfino concluiu o curso de Humanidades na prestigiada casa de ensino particular, Colégio Vitório. Logo passa a escrever poemas, pela saudade que tinha de Desterro, em “Saudades de minha terra”. Na mesma rua em que morava no Rio, Luiz conheceu o vizinho Gonçalves Dias e entregou-lhe seu poema. Gonçalves Dias, o poeta indianista, disse: “Temos um poeta”. Os dois irmãos freqüentavam no Rio as casas de José da Silva Mafra e Jerônimo Coelho. Concluído o curso de Humanidades, Luiz Delfino em 1852 na Academia Imperial de Medicina. Iniciou a publicação na imprensa de seus poemas e contos e também de uma noveleta “O órfão do templo” em seis folhetins, no Correio Catharinense. Nesses anos escreve peças de teatro “Sangue por sangue” e “O espectro do mosteiro”.
Em 1853 falece o irmão Miguel e ele vem para Desterro por longo período ocasião em que publica o único original de poema na imprensa catarinense: “A ave do amor”, em duas partes, a 8 e 15 de março, no Correio Catarinense. Delfino escreveu em 1854, a elegia “A noiva do cadáver”. Em 1855 seu prestígio poético se amplia, ao publicar poemas longos em jornais de destaque: “A ave do amor”, em O Brasil Ilustrado e “A origem das nuvens”, no Diário do Rio de Janeiro. Enquanto estudante de medicina, tendo aprendido na prática durante epidemia de cólera no Rio, jamais deixou de escrever seus poemas. Formou-se em Medicina em 1857, com apresentação de Tese. Doutorou-se em 30 de novembro diante de Suas Majestades Imperiais, tendo sido orador da turma.
Em 1858 casa-se com Maria Carolina Puga Garcia e ingressa na maçonaria, na mesma época. Ao declamar suas poesias no sarau do Grêmio Literário Português os presentes pensaram: como confiar em um médico que fazia poesia? Decidiu então conter a publicação de poesias. Investiu na compra de imóveis. Como médico, contou entre sua clientela grande número de meretrizes internacionais, pois florescia a atividade das hetarias no ambiente da Corte. Toda a seção “Aspasias” do seu livro “Intimas e Aspásias”, retrata sua experiência com essas mulheres.
No final da década de 60, o médico e poeta ao término da guerra contra o Parguai, não se contém e publica no Diário do rio de Janeiro, a 2 de maio de 1870, o poema “Aquidabã”, de fortes ressonâncias hugoanas. Mas logo cai no silêncio poético. Em 1879 publica o poema longo “Solemnia Verba”; depois “Nênia”. Comemorando o centenário de Camões publica 6 sonetos, iniciando a publicação da série “Levantinas” no Suplemento “A Estação”, da Gazeta de Notícias. Em 1881, a Gazetinha, de Artur Azevedo, inicia a publicação dos sonetos que constituiriam “Algas e musgos”.
O prestígio do poeta cresceu, tornou-se um mito e um ídolo, sobretudo com sua grande colaboração em “A Estação”, e na “Gazetinha”. Passa a se interessar novamente por política, mas estava ausente de Santa Catarina há 40 anos. No entanto Antonio Justiniano Esteves Júnior o atraiu para o Partido Republicano e em 15 de setembro de 1890, o PR elegeu para o senado os catarinenses Raulino Julio Adolfo Horn, Esteves Júnior e Luiz Delfino e mais quatro deputados. Na mesma época o filho mais velho de Luiz Delfino, Tomás Delfino, foi eleito deputado federal pelo Distrito Federal.
Luiz Delfino sempre foi avesso a participar de bares e cafés e também de associações. Embora tivesse méritos, não participou da fundação da Academia Brasileira de Letras em 20 de julho de 1897. O nome de Luiz Delfino teria sido cogitado em todos os encontros em que se desenvolveu a idéia dessa fundação, por ser um mestre entre os parnasianos, com prestígio inquestionável.
A obra de Luiz Delfino, esparsa em jornais e revistas, foi postumamente editada por seu filho Tomás, que as publicou em 14 volumes, de 1926 a 1943. Faleceu em 31 de janeiro de 1910.

DRAMA ESQUÍLICO
À tarde. – A casa à praia. – A brisa harmoniosa
Movendo a juba de oiro, amarelo, de lei,
O mar era o leão de forma fabulosa;
Lentamente a estendia ao sol, o velho rei.

E as crianças riam, quando a mestra corajosa
Lhes disse, a rir também: Aos vossos pais dizei
Que o colégio acabou, e que eu mesmo, acabei...
E para sempre – adeus, anjinhos cor-de-rosa.

- Ó mãe, clama a família então, - findou a escola?...
Mãe...ó mãe, amanhã pediremos esmola!!...
Aquela voz, que ulula, e acusa, - a ré, a ouvi-la,

Ergueu-se, e o peito em chaga aos filhos mostra...e os sonda...
O céu se abria atrás da úlcera hedionda:
E a úlcera era uma estrela em radiação tranqüila!...

NASCER DO SOL
Acorda, como emir voluptuoso,
Na cálida ebriez de essências puras,
E traz a enorme cicatriz do gozo
O sol, trajando as largas vestiduras.

À noite, que de esplêndidas,
Beijando uris em raivas de amoroso!
E o divã, - entre nítidas brancuras, -
Guarda mal o segredo duvidoso.

Vêem-se amarelos sândalos na cama,
Lençóis esparsos, vês da cor da chama,
Laca vermelha, cintas e corais,

Sandálias de esmeralda, ramalhetes,
Argolas de oiro, fulvos braceletes,
E o acre rubor de carnes ideais!
Fonte: Poesia completa. Tomos I e II, organização, estudo e bibliografia por Lauro Junkes.Edição ACL, 2001.

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