Cruz e Sousa

 
 
João da Cruz e Sousa nasceu em 24 de novembro de 1861, em Desterro, SC, filho de escravos libertos do Marechal Guilherme Xavier de Sousa. Estudou no Ateneu Provincial, onde logo se destacou de seus companheiros de estudo. Alma amorável, delicada, sensível, vibrando numa sensibilidade quase doentia, que ele encobria com um exagerado ar de afetação e frieza com que parecia olhar para tudo. Sensibilidade que era sofrer e que o levava ainda nos virados e primeiros tempos de vida, a compor o seu “Num campo santo”. Pela mocidade continuou a ser o mesmo inquieto, o mesmo irritável, o mesmo romântico, o mesmo impulsivo, mas ainda e sempre sentimental. Era dispersivo, instável. Ora aqui, ora li, ora acolá, numa agitação e mesmo falta de estabilidade que o levam do jornal da Província, a ponto de teatro, a viagens fora da terra natal, para onde retorna, para de novo excursionar, sem uma segura orientação. Parece que há dentro dele uma névoa que o obriga a se movimentar assim. É uma contínua agitação e inquietação, num quase delírio ambulatório. É como se seu espírito, sua alma fosse uma massa de águas tangidas por forças secretas, mas que ao menor toque se arrepiavam, ondulavam, fremiam, se agitavam até extravasar... Redatoriava jornais humorísticos e de crítica, entre os quais “Moleque”, onde suas sátiras eram como setas de veneno, que feriam certeiramente aqueles que o hostilizavam. Seus artigos eram ferinos e cheios de acidez. De suas idas e vindas ao Rio, retorna à Ilha influenciado por Arthur de Oliveira, Eugênio de Castro, Verlaine e outros autores. Abandona o lirismo e abraça com entusiasmo de cristão novo, a Nova Escola. Seus versos começam a ser reconhecidos, lidos, recitados nos salões, admirados mas não compreendidos, por enevoados herméticos. Como a sua prosa, encantam pela musicalidade, pela onomatopéia, pela maneira porque repete as palavras, pela extravagante forma porque se liga, às vezes com significação disparatada. Abraça o Simbolismo, movimento iniciado na arte pois a pintura nada mais era do que um flagrante de vida, enclausurado no dourado da moldura. Foi um movimento de reação ao Parnasianismo. Os simbolistas quiseram com sua nova forma estrutural, pinturesca, apreender, fixar, o reflexo, o sentido e a expressão das coisas, no momento alígero e fugaz da hora que passava em sua correspondência com o ritmo da vida, o incomensurável e incontido do movimento de composição e decomposição das coisas e a sua impressão e projeção no ambiente que as cercava. No Brasil o movimento foi trazido da França por Arthur de Oliveira em 1875 ou 1880. Cruz e Sousa destacou-se no Simbolismo. Escreveu “Missal”, “Evocações”, “Broquéis”. Faleceu e foi enterrado como indigente em 1898. Fonte: Revista ACL 13, 1995. Conferência proferida pelo Acadêmico Carlos José da Motta de Azevedo Corrêa, no Clube 12 de Agosto, Florianópolis em 24 de novembro de 1941.


Poemas & Poesias

+ DE ALMA EM ALMA

Tu andas de alma em alma errando, errando,
Como de santuário em santuário.
És o secreto e místico templário
As almas, em silêncio, contemplando

Não sei que de harpas há em ti vibrando,
Que sons de peregrino estradivário,
Que lembras reverências de sacrário
E de vozes celestes murmurando.

Mas sei que de alma em alma andas perdido,
Atrás de um belo mundo indefinido
De silêncio, de Amor, de Maravilha

Vai! Sonhador das nobres reverências!
A alma da Fé tem dessas florescências,
Mesmo da Morte, ressuscita e brilha!

+ O Mendigo

O Mendigo
Os miseráveis, os rotos são as flores dos esgotos.

Cruz e Sousa

Angústia, rejeição e vil loucura
tornaram tua alma tão sombria,
ó poeta imortal, imortal brancura
das essências musicais da Fantasia...
Alma de fé profunda, clamorosa,
bálsamo das paixões mais cristalinas,
mar revolto de espumas dolorosas,
nascido em santas terras catarinas.
Hoje, sentado lá no etéreo canto,
isento da carnal miséria e do desprezo,
já não te afligem mais a dor e o pranto.
Aqui, da cor carrego o amargo peso
e as mesmas ânsias que cantaste tanto.
Mas tenho, qual tiveste, o Sonho acesso!

de
Remisson Aniceto
S. Paulo
em homenagem ao poeta Cruz e Sousa

+ VIDA OBSCURA

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
\tornando-se mais simples e mais puro

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
Magoado, o culto e aterrador, secreto.
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu, que sempre te segui os passos,
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!

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