Delminda Silveira de Souza

 
 
Natural de Desterro, filha de José Silveira de Souza e de d.Caetana Silveira de Souza, nasceu em 16 de outubro de 1854(Lucas Boiteux diz que nasceu em 1862). Sua formação foi bastante aprimorada, estudando francês, latim e noções de literatura. O professor que lhe instruiu era católico e estimulou no espírito de Delminda o sentimento religioso. Rimou belos versos e escreveu ficções em prosa muito bem recebidas. Colaborou em jornais e revistas em sua terra natal, em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e no “Almanach de Lembranças”, de Lisboa.

Conservou-se solteira e dedicou toda sua vida ao magistério, numa posição voluntariamente humilde e quase obscura, de acordo com seu espírito profundamente religioso de católica. No magistério foi diretora do Colégio Sant´Ana. Usava o pseudônimo “Brasília Silva” em seus escritos. Publicou dois livros de poesias: Lizes e Martírios(1908), Cancioneiro(1914) e ainda Passos Dolorosos. Muito intimista, sentimental, às vezes melancólica, e de grande sensibilidade, cantou a natureza da sua terra natal, os apelos da alma religiosa e os anseios de amor e compreensão. Embora superando-os historicamente, permaneceu fiel aos ideais do Romantismo.

Faleceu em 10 de março de 1932(Lucas Boiteux diz que faleceu sábado, 12 de fevereiro de 1932).

[Fonte complementar:Subsídios para a Enciclopédia Catarinense 1915-1936, de Lucas Alexandre Boiteux. Em fichas. Policopiado. Acervo IHGSC].

Poemas & Poesias

+ As operárias

Voltam do trabalho: Como vem contentes!
Risos inocentes, vozes d’alegria!
-Bando d’avezinhas vinde pelos ares,
ei-las, voltam aos lares quase - Ave-Maria.


Todo o dia, todo, desde o albor d’aurora!
Quando o céu colora purpurina cor,
deixam o casto leito, deixam o sonho lindo,
e lá vão sorrindo com sorrir de flor.


São laboriosas quais abelhas quando
doce mel buscando pelas flores vão;
elas, do trabalho no sagrado horto
buscam almo conforto, buscam honroso pão.


Pela tarde volvem; como vem coradas!
vem, talvez, cansadas do trabalho rude.
Como são formosas com tão vivas cores,
pobres lindas Flores!...Flores da virtude!


Trajam pobremente, vem de branco ou rosa,
ou da cor mimosa que reveste o Céu.
Umas, d’escarlate como a flor da vida,
todas tem vestida a alma d’alvo véu.


Todas vem risonhas, de cestinha ao braço;
nem um simples laço nos cabelos tem,
mas o diadema da virtude encanta
co’a beleza santa que dos Céus lhe vem!


Lá, no lar querido, umas tem carinhos;
tem, dos irmãozinhos o sorriso, a fala;
esta, a doce benção de uma mãe singela
que de a ver tão bela leda vai beija-la.


Nessa hora grata, desce do Infinito,
meigo olhar bendito cheio de ternura;
é o olhar da Virgem que o Universo envolve,
benção que absolve toda criatura!

DELMINDA SILVEIRA


+ As Operárias

Voltam do trabalho: Como vem contentes!
Risos inocentes, vozes d’alegria!
-Bando d’avezinhas vinde pelos ares,
ei-las, voltam aos lares quase - Ave-Maria.

Todo o dia, todo, desde o albor d’aurora!
Quando o céu colora purpurina cor,
deixam o casto leito, deixam o sonho lindo,
e lá vão sorrindo com sorrir de flor.

São laboriosas quais abelhas quando
doce mel buscando pelas flores vão;
elas, do trabalho no sagrado horto
buscam almo conforto, buscam honroso pão.

Pela tarde volvem; como vem coradas!
vem, talvez, cansadas do trabalho rude.
Como são formosas com tão vivas cores,
pobres lindas Flores!...Flores da virtude!

Trajam pobremente, vem de branco ou rosa,
ou da cor mimosa que reveste o Céu.
Umas, d’escarlate como a flor da vida,
todas tem vestida a alma d’alvo véu.

Todas vem risonhas, de cestinha ao braço;
nem um simples laço nos cabelos tem,
mas o diadema da virtude encanta
co’a beleza santa que dos Céus lhe vem!

Lá, no lar querido, umas tem carinhos;
tem, dos irmãozinhos o sorriso, a fala;
esta, a doce benção de uma mãe singela
que de a ver tão bela leda vai beija-la.

Nessa hora grata, desce do Infinito,
meigo olhar bendito cheio de ternura;
é o olhar da Virgem que o Universo envolve,
benção que absolve toda criatura!

DELMINDA SILVEIRA
Florianópolis.

[In Almanaque de Santa Catarina para o ano de 1910, Ano I, diretor Dr. J. Thiago da Fonseca]

+ Órfão

Oh, flor da soledade! Oh! violeta
singela e triste do sombrio val!
A nuvem de medonho temporal
que pelo céu passou, deixou-te inquieta:


Tremes ao sopro do favonio brando,
pendes a meiga fronte gotejante
se no Oriente assoma o sol brilhante,
se o beija-flor as rosas vai beijando.


Melancólica flor! Risonha, outr’ora,
no casto fruir de juvenis folganças,
-que é do teu ideal das esperanças
que o teu porvir não mais te of’rece agora?...


Vais pela vida como tenra folha
que o tufão desprendeu do tronco forte!
Qual pelo Oceano, sem fanal, sem norte,
pobre batel sem porto que o recolha!


Oh, flor da Soledade! Oh, flor mimosa!
Meiga saudade à sombra do cipreste;
quem te dará a est’alma dolorosa
o tesouro d’afetos que perdeste?!...

DELMINDA SILVEIRA


+ MEU RETRATO

Meu retrato é a violeta
no ermo vale pendida
como a virge’entristecida
a duro martírio afeita.

Quando a vires no vergel
das outras flores em meio,
colhe-a, guarda-a no teu seio,
que é meu retrato fiel.

Meu retrato é a rola meiga
gemendo na selva umbrosa;
é a brisa suspirosa
passando triste na veiga.

Quando ouvires seus gemidos
nas brenhas da solidão,
escuta os ais doloridos
do meu triste coração.
(...)

+ O Sabiá

Eu sempre o vejo em cada primavera,
Quando lança a manhã seu véu mimoso
Por sobre a natureza,
Qual trovador que o meigo canto esmera,
Casando – amor – ao terno suspiroso
Da lira da tristeza

Eu sempre o vejo; é o salmear sonoro
Do cajueiro em flor por entre o aroma,
Mais terno se desprende,
Quando silente pelo ocaso d´ouro
Mimosas cintas que do íris toma
A tarde bela estende.

Eu sempre o vejo...e enamorada escuto
A doce queixa ao rumorejo envolta
Da verde ramaria.
Quando a noite desdobra o véu de luto
E a voz do bronze pelos ares solta
O “salve” preludia.

Quando a noite desdobra o véu de luto
Co´o renovar primaveril das flores,
A beira dos telheiros,
Eu sempre o vejo e o canto seu me envolve
Do saudoso cismar dos meus amores
Nos sonhos feiticeiros.

Ó, vem, meigo cantor! Não tardes tanto,
Que já no verde laranjal branquejam
Os tenros botõesinhos;
Suspira a brisa o múrmuro quebranto,
Do sol aos raios tépidos verdejam
As moitas dos caminhos.

As borboletas, nos relvados bastos,
Por sobre o verde, similando flores,
Espreitam o abrir das rosas;
Plúmeos artistas, dentre os lírios castos,
Fabricam berços p´ra novéis amores,
Co´as plumas cetinosas.

Vem, ó meigo cantor, não tardes tanto!
Anseio ouvir-te o dúlcido lamento
Que o meu cismar circunda,
Como auréola de luz, ou mago encanto
De perfumes surtis que em brando alento
Triste remanso inunda.
Desterro, 1888.
[In Anuário Catarinense n. 5, 1952, acervo IHGSC]

NO ÁLBUM DE UMA MENINA
Nena, desperta, já desponta a aurora;
abre teus olhos, como a fresca rosa
qu´estende as níveas pétalas, agora
e vem comigo contemplar o céu.
- Que vês tu, mimosa?

-Abrilhantado véu
de nuvens cor de rosa
por sobre o Oriente
e no azul ridente
linda estrela a brilhar
- E o que vês tu, na terra?

A flor desabrochar
E o aroma qu´ela encerra
pelos ares se expandir
e todo, todo subir
da brisa no respirar

- E onde se vai o aroma?
- Ah! passa além da coma
frondente do arvoredo
e vai, como um segredo,
té onde brilha a estrela
precursora do dia.

Oh! sublime poesia,
imagem da inocência,
é a flor, é a essência,
é est´alva de Agosto
que forma na harmonia
o teu gentil composto
Pois tu és a flor mimosa
que desabrocha louçã,
tens a frescura da rosa,
tens o sorrir da manhã.
Tens no sonhar infantil
os arrebóis de encantos mil;
a luz do dia ao nascer
e quando dos lábios teus
s´eleva a prece singela,
tua oração sobre a Deus,
toda, toda inteira e bela,
- como sobe o doce aroma,
que s´eleva além da coma
frondente do arvoredo
e vai pousar qual segredo
no seio da linda estrela.

Desterro, 1/7/1888
[in Anuário Catarinense, 1953, pág. 124/125, acervo IHGSC]

+ Quem Morre

Quem morre solta da misteriosa argila,
Um delicado pássaro esquisito!
Solta-o do espaço à região tranqüila,
À Paz, ao doce Asilo, ao Céu bendito!...

Solta-o, e na luz divina da pupila
Sente-o emigrar aos Campos do Infinito!
E todo ele, castíssimo, cintila
Depois de haver errado como um grito!...

E nesse misto de ideal grandeza
De suprema ventura, e de pureza,
Essa ave exul, que a fria argila solta,

Asas espalma pelo espaço infindo,
E à força de desejos vai subindo...
Vai subindo...subindo...e jamais volta!...
ARAUJO FIGUEREDO
[In Almanaque de Santa Catarina para o ano de 1910, Ano I, diretor Dr. J. Thiago da Fonseca]

ÓRFÃO
Oh, flor da soledade! Oh! violeta
singela e triste do sombrio val!
A nuvem de medonho temporal
que pelo céu passou, deixou-te inquieta:

Tremes ao sopro do favonio brando,
pendes a meiga fronte gotejante
se no Oriente assoma o sol brilhante,
se o beija-flor as rosas vai beijando.

Melancólica flor! Risonha, outr’ora,
no casto fruir de juvenis folganças,
-que é do teu ideal das esperanças
que o teu porvir não mais te of’rece agora?...

Vais pela vida como tenra folha
que o tufão desprendeu do tronco forte!
Qual pelo Oceano, sem fanal, sem norte,
pobre batel sem porto que o recolha!

Oh, flor da Soledade! Oh, flor mimosa!
Meiga saudade à sombra do cipreste;
quem te dará a est’alma dolorosa
o tesouro d’afetos que perdeste?!...

[In Almanaque de Santa Catarina para o ano de 1910, Ano I, diretor Dr. J. Thiago da Fonseca]

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