Juvêncio de Araújo Figueiredo

 
 
Nasceu em 27 de setembro de 1864 na esquina das antigas ruas dos Artigos Bélicos e Tranqueira, hoje Victor Meirelles e General Bittencourt. Com 6 anos de idade encontra-se pela primeira vez com Cruz e Sousa na casa da professora Camila, à rua dos Ilhéus. Aos 9 anos, estuda em escola pública provisória em companhia de seu irmão Luiz, regida pelo professor Lucio Camargo, no Estreito. De saúde debilitada, nervoso ao extremo seus pais deixavam-no livre para percorrer os verdes campos floridos dos bosques e as praias brandas, na persuasão de que os encantos desses lugares pudessem trazer ao seu corpo o rejuvenescimento das forças, da pujança de que necessitava. Com grande vocação para o desenho de figuras, principalmente de cabeças, dedicou-se sozinho a este estudo. Em 24 de fevereiro de 1879 com o falecimento de sua mãe começou a escrever seus primeiros versos, dedicados à sua memória, os quais foram publicados pelo periódico Regeneração, propriedade do Partido Liberal Catarinense. Com a morte do pai dois anos depois conseguiu um trabalho de tipógrafo com Martinho Callado. Uniu-se ao grupo que trabalhava pela emancipação dos escravos, vindo com eles lançar, à Luiz da publicidade, um jornal chamado O Abolicionista. Escrever junto com Cruz e Sousa lindos sonetos, numa intimidade de irmãos. Conseguiu emprego no Jornal O estado. Após trabalhou como tipógrafo no Jornal do Comércio e depois no Tribuna Popular. Foram muitas as ocasiões em que se viu desempregado, só porque não admitia qualquer ofensa ao seu amigo e irmão Cruz e Sousa. Por causa de suas críticas à política republicana do Marechal Floriano Peixoto, foi deportado para o Rio em 1890. No Rio encontra-se com Oscar Rosas e conhece Olavo Bilac, Raul Pompéia e outros ilustres da época. Trabalhou com Cruz e Sousa na cidade do Rio, de José do Patrocínio. Mas esse emprego também não durou. Retorna à Ilha em 1891 como Secretário do dr. Marcelino Bayma. Foi nomeado Promotor Público da Comarca de Tubarão. Em 1892 volta a Desterro e é nomeado Promotor Público da Comarca de Tijucas. Rebenta a Revolução Federalista em 1893 e Araújo é nomeado Major Fiscal, sem entender coisa alguma da arte militar, nem de armas de combate.Teve por essa época revelações de sua mediunidade. Sem dinheiro conseguiu algum emprestado e pôs-se a fabricar tijolos.Mas ficava cada vez mais pobre. Teve idéia de fazer balas e doces para vender na casa de negócios do Caetano da Silva. Mas foi mais um negócio falido. Teve que vender sua Biblioteca de Direito e Jurisprudência que valia 800 mil réis por 150 mil para o Dr.Campelo e Henrique Valgas dada a penúria. Sua poesia vinha ditada pela inspiração aos borbotões. Publicou Madrigais e Asceterio e deixou por enfeixar em volume as coletâneas de versos: Praias da minha terra; Novenas de Maio; Filhos e Netos e Versos Antigos, além de poesias esparsas que com as duas primeiras reunidas pela Academia Catarinense de Letras deram ensejo a publicação de um livro intitulado Poesias, edição comemorativa do centenário de seu nascimento. A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro na Sessão de Manuscritos encontraram-se 143 poesias inéditas, completas e com título; 50 poesias inéditas, completas e sem título; e 84 poesias inéditas, incompletas, faltando o início e ou o fim. Ele foi o poeta da saudade e do mar, no dizer de Othon D´Eça. Membro da ACL, ocupou a cadeira n. 7 cujo patrono é Duarte Paranhos Schutel. Aborrecidos com o ritmo da Academia com Altino flores ele, Antonieta de Barros, Ildefonso Juvenal fundaram o Centro Catarinense de Letras que teve pouca duração. Faleceu em 6 de abril de 1927. Fonte: A mediunidade do poeta catarinense Araújo Figueiredo, de Márcio Araújo, Edeme, 2000).

O RELÓGIO DA MÁGOA
(in Revista Terra Catarinense, Almanaque para 1967, p.103, acervo IHGSC)
Graças ao céu!Voltei à nossa velha casa,
Que é o ninho encantador dos nossos lindos filhos!
Maria, andei com frio e hoje o calor me abrasa,
Pelas trevas andei e hoje só vejo brilhos...

Sinto o calor que vem do seio dessa casa;
E os brilhos que ora vejo, esses vieram dos trilhos
Da mais robusta fé que as dúvidas arrasa.
E das dúvidas quebra os mais fortes cadilhos!

E essa que ora me abraça, a velha Catarina,
Foi quem pôde contar, ao certo, a minha sina,
Quando me disse que eu bem cedo voltaria.

E voltei, lindo amor, porque de onde eu me achava,
Todo o meu coração tristemente escutava
O relógio da mágoa a bater noite e dia!

SONETOS
I
De volta do mar grosso as canoas de pesca
Vêm dobrando o costão, todas a quatro remos.
Ei-las agora, junto à praia branca e fresca,
Onde a espuma nos dá rosas e crisântemos...

Que vida encantadora , alegre, pitoresca!
E que emoções iguais lá na cidade temos?
Lá, nossa vida é toda uma aflição dantesca
Velados de amargura os próprios sonhos vemos!

Aqui, no mês de maio, azul, transparente,
Nesse trabalho rude a alma se vê contente;
Não há nenhuma só que de pesar se queixe.

E a luz de ouro do sol, sobre cada canoa
Paira como um tendal – é Jesus que abençoa
E Pedro, sem ser visto, as transborda de peixe!

II
Noite de junho. O frio, é vidro em pó coçando
As mãos dos que da praia, estendidos na areia,
Estão tranqüilamente o café esperando
De um rancho em cuja porta um clarão bruxoleia...

Outros já da canoa as velas vão soltando...
Não há tempo a perder, que à luz da lua cheia
O vento sul que sopra as ondas vai rolando...
E cada coração de pescador anseia!

Todos, todos ao mar, satisfeitos, felizes!
Sem sentirem do mal as profundas raízes!
Apenas da saudade envolvidos nas mágoas.

Mas que saudade doce a dessas almas francas,
Sob as velas em cruz, as grandes velas brancas
Da canoa que lembra uma ave à flor das águas.

Poemas & Poesias

+ Aurea Fonte

Não me falte, na estrada onde me vejo
De pés descalços, roxos e chagados,
A luz da Fé, de olímpico lampejo,
Vinda através dos céus estrelejados...

Nossa Senhora acolha o meu desejo
Na curva dos seus braços adorados;
E que me livre de infernal cortejo
Dos ímpios corações abandonados...

Nossa Senhora seja a minha guia,
Quando eu, à noite, ou mesmo à luz do dia,
Ande de cruz aos ombros pelas ruas...

Nossa Senhora que me farte d’água
Dos riachos do Amor, e a minha mágoa
Lave bem como já lavara as suas!...


Florianópolis, 1907.
[In Almanaque de Santa Catarina para o ano de 1910, Ano I, diretor Dr. J. Thiago da Fonseca]


+ Áurea Fonte

Não me falte, na estrada onde me vejo
De pés descalços, roxos e chagados,
A luz da Fé, de olímpico lampejo,
Vinda através dos céus estrelejados...


Nossa Senhora acolha o meu desejo
Na curva dos seus braços adorados;
E que me livre de infernal cortejo
Dos ímpios corações abandonados...


Nossa Senhora seja a minha guia,
Quando eu, à noite, ou mesmo à luz do dia,
Ande de cruz aos ombros pelas ruas...


Nossa Senhora que me farte d’água
Dos riachos do Amor, e a minha mágoa
Lave bem como já lavara as suas!...

ARAUJO FIGUEREDO


+ Quem morre

Quem morre solta da misteriosa argila,
Um delicado pássaro esquisito!
Solta-o do espaço à região tranqüila,
À Paz, ao doce Asilo, ao Céu bendito!...


Solta-o, e na luz divina da pupila
Sente-o emigrar aos Campos do Infinito!
E todo ele, castíssimo, cintila
Depois de haver errado como um grito!...


E nesse misto de ideal grandeza
De suprema ventura, e de pureza,
Essa ave exul, que a fria argila solta,


Asas espalma pelo espaço infindo,
E à força de desejos vai subindo...
Vai subindo...subindo...e jamais volta!...

ARAUJO FIGUEREDO

+ RECORDANDO

(dedicado ao amigo Cruz e Sousa)

Recordas? Esta praia é a mesma onde viveste
Longos anos comigo. É a mesma na brancura,
A mesma na alegria, a mesma na frescura;
E se espelha no mar o mesmo azul celeste.

Os versos virginais que sempre lhe fizeste,
E os que eu também lhe fiz, rimados de doçura,
Correm por este mar, pela imensa planura:
São perfumes sutis de um roseiral agreste.

Recordas? Esta Praia é sempre a mesma praia,
E quando morre o sol, e quando a luz desmaia,
Continua a embalar, entre os ventos dispersos,

Esse anseio de amor, que sonhamos outrora,
E que palpita e vibra, e que renasce e chora,
E vive a soluçar nos meus e nos teus versos.

[Márcio Araujo, in A mediunidade do poeta
catarinenseAraújoFigueiredo]

+ VIDA FELIZ

Ó Ilha! Ó minha mãe! Campo do meu trabalho!
Como eu te quero bem, pelo rolar dos dias!
Sinto que vêm de ti todas as energias,
E o melhor e o mais santo e divino agasalho!

Ó Ilha amada! És tu quem o bendito orvalho
Derramas nos rosais das minhas alegrias!
E quando triste estou, nas belas sinfonias
Da tua luz sublime, as tristezas espalho...

Vim de ti e de ti veio a mulher querida,
Que é linda flor de trigo e flor de minha vida;
E vieram de ti meus filhos e meus netos.

Quem mais feliz do que eu, Ilha verde e aromada,
Se uma tenda construí, numa praia abençoada,
Lendo ao mar inebriante os meus poemas diletos.

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