Feliciano Marques Guimarães

 
 
Feliciano Marques Guimarães nasceu em Florianópolis, Santa Catarina, em 24 de novembro de 1897, filho de Dona Amelia Elizabeth Minelli Piazza e do Sr. Arthur Marques Guimarães. Viveu na Rua Trajano, no centro daquela cidade, com seu irmãos Otávio e Adélia. Alistou-se no Exército Brasileiro aos 18 anos e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde avançou ate a posição de Primeiro Tenente. Aos vinte anos casou-se com Julia Renart com quem teve sete filhos: Dulce, Lucíola, Maria Antonia, Claudia, Arthur, Feliciano, e Júlio. Separou-se nos anos 1940. Durante os anos que em foi sargento, matriculou-se na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, então capital do estado do Rio de Janeiro, graduando-se aos 41 anos de idade. Ao reformar-se do Exército, montou consultório odontológico em Nilópolis, no Rio de Janeiro, transferindo-se nos anos 1950 para Senador Camará e em seguida para Paciência, bairros do subúrbio da mesma cidade. Em 1954, casou-se com Valdira Barbosa, com quem teve duas filhas: Otávia e Elizabeth. Foi professor de Educação Física no Instituto Laffayette na cidade do Rio de Janeiro por 33 anos.

Homem inteligente e sensível, amava Florianópolis e a pátria, assim como a Natureza. Pertenceu ao Clube dos Excursionistas, era apaixonado por ópera e fotografia, e, acima de tudo, por poesia. Seu poeta preferido era Cruz e Souza, de quem guardava uma fotografia original. Sua terra natal foi inspiração para alguns de seus poemas, alvo de sua saudade. Porém, onde ele melhor canta o sentimento é nos sonetos de amor dedicados a Valdira. Foi nos braços da musa que o coração do poeta deixou de bater, em 13 de setembro de 1961.


Poemas & Poesias

+ Angústia

Vivo como se fôsse réu confesso
De atroses crimes nunca praticados
E, da escura enxovia no recesso,
Recitasse a oração dos condenados.

Vivo suspenso, o coração opresso
De quem tivesse os dias seus contados
Ou aguardasse próximo regresso
De tardos mensageiros malogrados.

Sinto-me como uma ave que tivesse
Léguas e léguas pelos céus voando
E exáusta, não achasse onde pousar;

Como alguém almejasse e não pudesse
Estreitar contra o peito o ente amado
Por braços não os ter, para alcançar.

+ Aspiração

É verdade que a sós os dois ficamos,
A tua mão na minha mão premente
E mil juras de eterno amor trocamos,
Trocamos afagos, doce, ternamente.

É verdade que muito nos amamos,
Que nos amamos doida, loucamente,
Mas inda assim, querida, convenhamos,
Não quero a tua carne tão somente.

Quero-te os pensamentos, quantos tenhas,
Pois a tanto meu grande amor me obriga
Alimentando uma esperança vã.

Quero que um dia, inda tu venhas
A beijar-me na face como amiga,
A oscular-me na fronte como irmã.

+ Às Catarinenses

Senhoritas trigueiras dos Açores,
“Fräuleins” que nos cabelos sol troxestes,
“Signorine” dos olhos sonhadores
Que uma formosa pátria aqui tivestes,

Aceitai a homenagem sem favores
Do poeta encarnecido que está prestes
A trocar dêste mundo os ilusores
Gozos terrenos por idéias, celestes.

Espôsas, mães, avós, gentis donzelas
Da minha terra bela entre as mais belas,
Para meu gáudio consentí-me a dita

De vos beijar a tôdas, comovido
E de joelhos, na fímbria do vestido,
Em memória da heróica e bela ANITA.

+ Conceitos

Conceitos
À memória do Prof. J. B. Godinho.

Quando buscaste a sombra do cipreste
Para ali repousar eternamente,
No conceito de alguém, maledicente,
Covarde foi o gesto que tiveste.

Mas outro conceito então investe
Contra aquêle primeiro, deprimente,
Dizendo-te um herói assaz ingente
Pelo nenhum valor que à vida deste.

Com tuas próprias mãos abriste a porta
Que nos conduz ao Nada ou a Verdade,
E que os umbrais tem próximo ao jazigo.

Fôste herói ou covarde, pouco importa:
O certo é que plantaste uma saudade
No coração de quem chamaste – amigo.

+ Conjectura

Velas pandas e brancas, a canoa
Singrando o mar desliza mansamente
Qual uma ave gigante que, imprudente,
Molhando as asas, sobre o mar revoa.

Da praia se aproxima, junto à proa
Um pescador cantando. Docemente
Uma canção monótona, plangente
Em meus ouvidos como um salmo ecoa.

Talvez para medir do pescador
Toda a alegria que lhe vem do amor
Fosse preciso mais que a luz solar...

Talvez para medir seu sofrimento,
Preciso fosse todo o firmamento
Refletido no verde-azul do mar...

(In:Anuário Catarinense, 1950.
Diretores: Altino Flores e Martinho Callado Júnior)

+ Continuidade

Se a natureza tua te negasse
Ou a mim me negasse a natureza,
De pái e mãe gerar quem no chamasse,
A nos encher a vida de beleza;

Se assim o desejado elo faltasse,
Negando-nos a sólida certeza
De que entre nós, os dois, nada é fugace,
Mas eterna do amor a chama acesa,

Quando fôssemos velhos, uma história
Que quando crianças foi o nosso encanto,
Não teria por nós continuidade.

E quando se apagasse a vida inglória,
Ninguém nos levaria ao campo santo
Uma lágrima quente de saudade.

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