Roberto Costa

 
 
Roberto da Silva Costa nasceu em Florianópolis, a 1o. de janeiro de 1942. É bacharel em ciências jurídicas e sociais. Tem participado de inúmeros concursos de poesias e contos, tendo sido premiado em muitos. Possui trabalhos publicados em revistas e jornais literários, tanto catarinenses como de outros estados. Dedica-se também à pintura.

Poemas & Poesias

+ O MENINO VENDEDOR DA BR

O menino vendedor da BR
ergue o braço rogante
apresentando sua mercadoria

É um periquito no dedo
ou um prato de jabuticabas
feitas olhos de morenas
que ele nunca irá beijar

Ou são uvas
verdes uvas
feitas olhos de moças loiras
cujos cabelos ele nunca terá
para afagar.

Menino à margem da estrada
menino marginalizado.
Ao sol de janeiro
instalas tua imaginação nos carros luzidios
que demandam os balneários azul-sol da realidade.

Ou, se é dezembro,
um outro menino te olha,
por detrás do para-brisa,
com olhos de chocolate,
com mãos de brinquedo
com roupas de príncipe.

O menino vendedor da BR
ergue o braço rogante
apresentando sua mercadoria
são camarões
são siris
são gaiolas
são cajus de dar água na boca.

Menino vendedor da BR
vejo-te sob a chuva e o vento
que não te intimidam
mas que te derrubam pelos pulmões.

Quanto luxo tens visto passar, menino?
Quanta riqueza?
Quanta energia?
Quanto pão?
Pra quem vão?
Quantas excelências, menino, tens visto passar?
Quantos senhores fardais?
Quantos monarcas?
Quantos carcereiros?
Quantas espinhas engomadas?
Quantos prestidigitadores?
Quantos soldadinhos de chumbo?
alegres
tristes figuras deste teatrinho do absurdo.

E quase nenhum pára a ver tua mercadoria
e, entretanto, tu persistes, menino,
na lição da onda contra o rochedo
sem anjo da guarda
sem férias
sem décimo-terceiro
sem dissídio
sem previdência.

De onde tiras tanta persistência, menino,
valente menino da BR?
Confio em ti
ainda que precocemente aposentado do bilboquê,
do gude, do pião
e da pandorga
que um dia erguerás, tu mesmo
com tua obstinação
com “apenas duas mãos”, “o sentimento do mundo”

e algum ferro
a grande
a esperada estrada do sol
da grande manhã.

Novembro 1979

Concurso Contos e Poemas - Virgilio Várzea contos e Luiz Delfino poesia 1979, FCC edições

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